
Diria que não se trata de esquecimento, mas de lembrar como nos podemos esquecer. Por três vezes a Varazim Teatro e sua Companhia Certa celebraram o Dia Mundial do Teatro, primeiro a 27 e depois nos dias 28 e 29 de Março, com um músico em palco e um actor a representar a certeza do neto, “O avô tem uma borracha na cabeça”, tudo porque começa a esquecer coisas por causa da doença de Alzheimer.
“Desculpem, o tempo desacertou-se e eu fico bem perdido, porque não sei por onde começar esta história”. Mas às vezes é uma questão de lugar, de posição, “talvez aí de vosso lado, sim, talvez se eu olhar aí desse lado, eu consiga ver o princípio desta história, é isso que eu vou fazer, vou olhar aí de vosso lado”. O avô sentou-se entre o público com vontade de transportar todos para o universo das memórias, “vamos todos desligar os telemóveis e vamos acreditar, vamos fechar os olhos e deixar-nos levar pela música, pelas nossas memórias, todos os crescidos os mais jovens e mais pequeninos, todos a ouvir a música e a deixar-nos levar até à primeira memória, àquela memória lá mais longe do tempo, quase esquecida, que nós temos dos nossos avós, do nosso avô, da nossa avó, ou então dos nossos pais, aquela memória que nós já nem lembrávamos que tínhamos”. Aí nesse lugar distante encontramos o nosso avô em todos os momentos que nos fizeram crescer: “Anda avô, anda empurrar-me de baloiço, tu podes avô, tu és forte, tu consegues, anda, empurra-me, isso, com força avô, mais alto avô, mais alto, até ao céu, até ao infinito, avô anda até aquela nuvem branca em forma de tartaruga, avô força, tu consegues avô, força, mais força avô, mais alto, anda, faz-me voar, faz-me voar”. Depois, “a comer o bolo, a passear na baixa, a ver as lojas, a ver os livros, e o avô contava-me muitas histórias, daquelas, daquelas do tempo em que era novo, o país do qual os crescidos têm sempre muitas saudades”. É curioso, mas às vezes, “parecia que era o avô quem se mais admirava, com as coisas que víamos e descobríamos, como se também para ele tudo fosse novo, como se o avô não tivesse tão mais mundo em cima e muito, muito mais tempo dentro, muito mais do que eu”.
Até que um dia, “descobri que o meu avô tinha uma borracha na cabeça, as borrachas apagam coisas, e a cabeça do meu avô apagava coisas, as coisas dele, a vida dele, a ele e a nós”. Na realidade o avô só tinha um problema, “por vezes esquecia-se de coisas. Em princípio eram coisas sem importância. Pelo menos, era o que eu achava”. A caneta, o lápis, o chapéu, mas depois, trocava os nomes, enganava-se nas ruas. “Outra vez, enganou-se no meu nome. Confundiu-me com o irmão do meu pai. O meu tio. Outra vez, o avô esqueceu-se do caminho para casa. Foi eu que tive de o levar. Até que um dia, eu perguntei. O que tem o avô? Os meus pais hesitavam. Não queriam dizer nada. Não era por mal, os crescidos são mesmo assim. Às vezes não sabem o que dizer às crianças. Só que essa criança era eu. E tive que ser eu a responder – O avô tem uma borracha na cabeça”.
E agora? Agora, como é que ia ser? Será que iria desaparecer tudo? “Eu não me sei lembrar de nada. E eu não podia deixar isso acontecer. E eu tinha que fazer qualquer coisa. Então, pus-me a pensar. Pensei, pensei”.
A obra representada e encenada por Eduardo Faria é a partir do livro homónimo de Rui Zink e Paula Delecave, desenvolvida a partir do encontro ternurento de um neto com o seu avô, que começa a expandir na sua cabeça os dias cada vez mais diminuídos. O neto não se convence com a desfaçatez da memória e procura uma cura que encontrará tal como o autor do texto: “Esta pessoa a quem quero muito já nem sempre se lembra de mim, mas eu ainda me lembro dela”.
Por: José Peixoto
Fotos: C Certa