
“Aprendi que tudo está na palavra. E que o seu uso, na esfera pública, deve ser parcimonioso, para que não diga senão o que deve dizer. Porque a palavra responsabiliza”, Andrea Silva abriu no Cine-Teatro Garrett, no dia 25 de Fevereiro, com estas palavras a Cerimónia de Abertura do 27.º Correntes d’Escritas.
A Presidente da Câmara Municipal disse constatar, “com mágoa e preocupação, que o seu mau uso pelos agentes políticos é a principal causa do descrédito nas instituições democráticas em todo o mundo. Pelo que me diz respeito, recuso-me a contribuir para a degradação do espaço onde me movo. Não me reconheço na cacofonia ensurdecedora em que a sobreposição de vozes impede que ouçamos o outro, colocando-nos numa lógica do ‘nós contra eles’, que elege o ódio como grande factor motivacional. Ao poder devorador das paixões negras, visível no facto de as expressões de ódio no espaço público terem atingido níveis nunca vistos desde a década de 1970, quero contrapor o apelo às paixões luminosas, através de melhores políticas públicas e de uma retórica que incite à conquista de objectivos morais”.
E alerta para o facto dos “actuais senhores do mundo não sabem que nos cursos de Relações Internacionais (a minha área de formação) os clássicos são estudados como precursores do pensamento geopolítico – do antigo, que suportou as longas décadas em que os sistemas democráticos garantiram a paz e a diminuição das desigualdades entre os povos; e não do actual, em que o sistema digital, as redes sociais e a inteligência artificial, conjugados, instalaram o caos e um tecno populismo autoritário e predador”.
Para Andrea Silva é assim que estamos: “em sociedades crescentemente polarizadas; num mundo em que as autocracias predominam; num tempo em que a moderação é vista como indecisão e falta de coragem – e não como factor de resistência democrática à simplificação e à desinformação”.
Para não desumanizar: “Recuso-me a admitir que assim seja! Recuso-me a aceitar um mundo em que o estatuto de ‘idiota da aldeia’, de que falava Umberto Eco, se amplificou à escala planetária, fragilizando o papel do conhecimento, da ética e da verdade como pilares do discurso público. Não!, caros amigos, eu não quero um mundo formatado pelas ‘legiões de imbecis’ (Eco, de novo) a quem a tecnologia deu capacidade de causar dano à humanidade: hoje, qualquer pessoa pode, a partir de casa, chegar a milhões de outras, mais do que dantes os grandes meios (alguns, hoje, desacreditados ou em agonia). Eu quero um mundo em que os livros e autores continuem a dar-nos a capacidade de repensar um futuro que, por ter cada vez mais pressa de acontecer, exige uma capacidade de discernimento (de imaginação, digamos) só ao alcance de quem sabe administrar o tempo a uma diferente velocidade”.
E acrescenta: “Essa é a vocação do escritor, essa é a capacidade da leitura – autores e leitores conscientes da capacidade redentora da literatura como forma de paciência e de meditação”.
Deixou ainda sentidas palavras a Álvaro Laborinho Lúcio, que nos deixou com os seus livros no ano passado: “A sua serenidade lúcida e o seu falar pausado (por contraponto à instantaneidade e à superficialidade do turbilhão digital), a eleição da dúvida como caminho para a verdade (num tempo em que ela é entendida como sinal de fraqueza), a sua capacidade de diálogo (quando o ruído é amplificado e a razão silenciada). E permitam-me que esta evocação, tanto quanto uma homenagem, seja um desafio: que não nos alheemos do mundo onde medra o radicalismo, que não deixemos o campo de batalha ao dispor do inimigo que cresce nesta cultura niilista, especialmente entre os jovens; que pensemos nos problemas sistémicos que a sociedade enfrenta e nas ferramentas de que dispõem os inimigos da democracia – que são nossos inimigos comuns”. Concluiu Andrea Silva.
Por: José Peixoto