
O meu berço foi uma ilha. Fiada de tugúrios sem horizonte, apartados da rua, apertados uns contra os outros. Chamavam-lhe ilha – e tantas eram elas nas Caxinas e na Póvoa de há meio século – por se encontrar física e socialmente isolada, escondida do espaço público. Esse que – dizia-me recentemente o urbanista catalão Salvador Rueda, numa entrevista – é o que nos torna cidadãos.
Rueda inventou o conceito de super quarteirão (superilles), revolucionando a convivialidade no espaço urbano em Barcelona, lá na Catalunha de onde nos veio a forma da nossa palavra (illa). A minha ilha, escrevo eu, a trinta anos de distância, era, em antítese, uma espécie de micro-quarteirão, a cidade a que os pobres têm direito quando a habitação não é tratada como um direito. Mas onde a vizinhança, em compensação, adquiria foros de hiper-convivialidade.
Sim, quase não havia privacidade (e isso era mau). As casas eram pequenas demais para a vida que nelas crescia (e isso era mau). Mas com a sua viela sem largueza nem riqueza para automóveis, a ilha era lugar seguro para uma criança, quando lá fora a rua evoluía em insegurança viária; era o lugar de encontro e da solidariedade entre vizinhos, quando a cidade evoluía – ou regredia, será? – para o ensimesmamento a que chegamos, entretanto.
Não sabia nada de urbanismo quando ali morei. Vizinhança, proximidade, conceitos a (re)ganhar nos últimos anos muita atenção entre académicos e planeadores, e que entretanto aprendi a acalentar, enquanto jornalista, nada me diziam. Estava alheado a sonhar com uma vida que me trouxesse outras oportunidades. E elas chegaram, mesmo para quem partia dali, do fundo de um quintal.
Quando demoliram a minha ilha, no âmbito de um programa nacional de realojamento, de erradicação de barracas, já lá passava pouco tempo, e não senti saudades do espaço físico. Mas escarmentado pelo ambiente que encontrei nas cidades onde morei, cedo percebi que dificilmente encontraria, fosse para onde fosse, o espírito daquele lugar que, de tão acanhado, não tinha um metro quadrado para a solidão.
Foi na casa da ilha, sem sala de estar nem estantes, que li, adolescente, o meu primeiro romance para gente grande, entrando, sem pré-aviso, pela desumanidade da guerra civil de Espanha. E não podia imaginar o quanto aquele livro serviria, tantas décadas depois, de inspiração para este texto.
Não sabia, então, que a abrir o poema ao qual Ernest Hemingway (1899-1961) fora buscar o título para o seu Por quem os Sinos Dobram, John Donne (1572-1631) escrevera que “Nenhum homem é uma ilha / Inteiro em si mesmo". Versos que, séculos depois, em múltiplas variações, se espalharam como fogo pela terra, em múltiplas manifestações culturais, quando o individualismo secou o nosso sentido de comunidade.
Ciente do que devo aos meus tempos de ilhéu, poderia sem dificuldade, subscrever todo aquele poema, cuja leitura aconselho. Se não creio que devamos tocar a rebate pela morte das ilhas, acredito que elas valem um olhar menos preconceituoso, pois, para lá da pobreza que na sua destruição se tentou erradicar, havia ali algo mais que faz falta, hoje, à cidade que erguemos sobre os escombros delas.
Por: Abel Coentrão
Nota: Este texto integra a exposição “Ilhas”, de Rui Maio Sousa, na Biblioteca Municipal no âmbito da 27ª edição do Correntes d’Escritas, até 28 de Março.
A Ronda da Noite, Luís Caetano
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