Voz da Póvoa
 
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Isabel Lhano Voltou ao Pátio de todas as Conversas

Isabel Lhano Voltou ao Pátio de todas as Conversas

Cultura | 10 Abril 2026

 

O dia podia ter sido hoje, todos os dias há quem naquele bar sublinhe uma qualquer memória de Isabel Lhano, lugar onde a artista reunia com os amigos. Por isso no dia 14 de Março, a Nuvem Voadora responsável pela Queima do Judas em Vila do Conde, quis evocar o fogo eterno da menina dos cabelos cor de fósforo na 21ª edição do evento (Isabel fez dois cartazes, um em 2006, há 20 anos, e um outro em 2010), e convidou o escritor Valter Hugo Mãe “a Isabel tinha o afecto como assunto no centro do mundo”, o poeta João Rios, o fotógrafo Nelson d’Aires e o músico Adolfo Luxúria Canibal, a conversar sobre a vida, obra e memórias partilhadas com Isabel Lhano. Falta dizer que o director da Companhia Nuvem Voadora, Pedro Correia, foi quem organizou a tertúlia, onde o Ramiro foi chamado a depor a sua visão sobre Isabel Lhano.

O universo da menina dos cabelos cor de fósforo sempre fascinou os amigos e todos aqueles que através da sua obra se fascinam. Sem outro assunto que não seja um preguiçoso abraço, deixo aqui pequenos registos do que foi partilhado com uma plateia que preencheu as cadeiras e os lugares de pé:

“Estou seguro de que a Isabel foi a pessoa mais carismática que eu conheci, muita gente incrível, muitos dos meus heróis, inclusive, do mundo inteiro, eu tive a hipótese de em algum momento coincidir com eles, mas no que diz respeito ao carisma, eu não vejo ninguém que consiga ombrear com a Isabel, com a sua singularidade, e sobretudo com a dimensão genuína, com que ela passou nas nossas vidas. E aquilo que eu acho que ao fim de muitos anos a Isabel mais me mostrou, e que eu, agora velho, quero muito aprender isto, e vai-me custar porque não tenho a qualidade humana que ela tinha, tem a ver com a capacidade sincera, eu diria quase uma capacidade rigorosa de perdão”. E Valter Hugo Mãe acrescenta: “A Isabel, obviamente, frustrou-se com muita gente, e em muitas situações sentiu-se preterida, agredida, esquecida, muitas das vezes até pessoas de quem ela gostava, pessoas que ela admirava, tomaram opções que eram contraditórias com os ideais mais básicos da humanidade, mas a Isabel tinha uma coisa, ela frustrava-se, era frontal, debatia o assunto com as pessoas, e ela jamais guardaria rancor. Ela tanto se frustrava como desculpava e regressava à mesma limpa amizade numa fração de segundos. Eu acho que é a coisa mais impressionante que eu já vi um ser humano ser capaz de fazer”.

João Rios recordou que, “a coisa maior, a coisa mais funda e substancial que eu guardo da Isabel, tenho esta sensação e é difícil trocá-la por outra, de que a Isabel veio para a vida para ganhar pessoas, para se querer dar às pessoas. E o seu trajecto, não só como artista, como cidadã, comprova de forma clara e muito incisiva a pessoa que a Isabel foi. Ou seja, em tempos tão pestíferos e tão insanos como estes que nós vivemos, a Isabel tem de continuar a ser uma presença obrigatória nas nossas vidas. Nós que nos sentámos tantas vezes nestas mesas deste Pátio, e noutras mesas, e noutros lugares, temos que, pegando no que ela nos doou, reafirmar, por aquilo que ela nos doou, a construção daquilo que eu acho que é mais elementar”. Para o poeta, a Isabel foi “uma pedagoga extraordinária, e estão aqui pessoas que foram alunas dela e que sabem o quanto ela foi determinante, até nas suas escolhas depois, como jovens adultos. A Isabel era uma tipa frontal, que não encomendava recados a ninguém, e acima de tudo, olhando para a obra dela, é notável como ao longo do seu percurso, trabalhando sobre materiais tão fraturantes, tão pesados, tão danados, tão de maldição, conseguiu construir um património de ética, de estética e de extraordinária beleza”.

Nelson d’Aires referiu que “o seu cabelo vermelho, que não era simplesmente uma questão estética, era sim um manifesto. Obviamente, ela não tinha propriamente uma inspiração nacional, apesar da obra de Isabel ser bastante conhecida a nível nacional, mas ela importava-se primeiro pelo local. E a forma como trabalhou, por exemplo, a série de retratos no formato 50x50, onde pintou mais de 200. São retratos maravilhosos, monocromáticos, mas isto não é um número, é uma vida. A Isabel queria aproximar todas aquelas pessoas que conhecia, como se quisesse, efectivamente, trabalhar a memória não só dessas pessoas, mas a relação que ela teve com essas pessoas”. Para o fotógrafo, “hoje vejo e reconheço que esse trabalho é simplesmente delicioso, é só simplesmente uma carta de amor que ela fez, e inclusive pintou pessoas que ela conheceu dois ou três dias antes, mas o empenho e a dedicação que ela tinha para com esse deslumbramento, porque era deslumbrada, mas ao mesmo tempo muito térrea também. Não posso esquecer nem deixar de dizer que ela tinha muita alegria, mas também muita dor. E o estado do mundo, sobretudo nestes últimos 20 anos, afectou-a muito. E quem a conhece não consegue desligar a história dela e o seu comportamento quotidiano para com o estado do mundo de ano para ano, de década para década”.

Adolfo Luxúria Canibal, a voz dos Mão Morta recorda a pintora dos afectos: “Retratou-me algumas vezes. Eu não sei aproveitar o que é que poderia dizer de Isabel. Eu não era muito amigo dela, acho mesmo. Sei que a encontrava sempre que eu fazia alguma coisa. Sabia que teria no concerto pelo menos a Isabela lá. Ela estava sempre presente e era sempre um prazer encontrá-la, sempre um prazer falar com ela, uma pessoa muito directa. Era mesmo ao contrário dos seus quadros que são refinados, que apesar de ser um realismo e muito híper, há ali uma técnica de pintura, um refinamento estranho. Aliás, só se a situação fosse assim. Mas na sua forma de pensar e na sua forma de estar mantinha-se lá, sem partir. E eu gostava disso. Tanto que, sendo bruta, não era agressiva. Não era mal-intencionada e era sempre bem recebida. O que eu posso dizer é que eu já a gravo há quase dois anos. E tenho sentido mesmo a falta dela. Tenho sentido a falta de referência dela. Quando não estava do lado do outro, não estava de maneira nenhuma. Estava a ser explorada eternamente. Mas ela era uma referência. Eu sabia que se precisasse, ela estava. Sabia onde ela estava. Sabia que ela estava por diante. Sabia que ela existia. E agora não sinto essa falta. Sinto essa sensação”.

O Judas ardeu no Centro de Memória no sábado de aleluia, num espectáculo inspirado na obra de Isabel Lhano.

Por José Peixoto

Fotos: JP e Nuvem Voadora

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