Voz da Póvoa
 
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Homens de Ouro

Homens de Ouro

Cultura | 1955 | 24 Junho 2020

No ano em que se iniciam as comemorações do 70º aniversário da mais importante instituição coral da Póvoa de Varzim, quis o “destino” que o maior símbolo de reconhecimento poveiro, o Grau de Ouro do Município da Póvoa de Varzim, fosse entregue à Capela Marta. Bem merecido!
Permitam-me que rejubile de humilde orgulho, pois só Deus e os coralistas da Capela sabem o que foi necessário para chegar até aqui. Mas, sem querer desprestigiar nada, nem ninguém, o meu orgulho vai muito para além desta tamanha distinção. Resumo-vos a “minha” Capela: a que conheci, a de que me contaram, a que estudei e a que conheço!

Tal como a música, a Póvoa, desde cedo, em certos e vários momentos, despertou a minha atenção. Foi em pequeno, que um desses momentos aconteceu. Lembro-me que era noite, e a Praça da República estava repleta de pessoas e envolta num silêncio tão sepulcral, que à época não percebera. Parava as minhas brincadeiras “silenciosas” de criança, verificando que apenas “alguém” quebrava aquele estranho silêncio, mas parecendo aumentar o seu significado. Gigantes de negro a tocar rela. Coro de homens de bigode com vozes graves a cantar profundamente, num idioma que desconhecia.

Eram as comemorações da Semana Santa, mais concretamente, a Procissão do Enterro do Senhor. Os gigantes eram os “farricocos”, o coro, a Capela Marta.

Cresci a ouvir a Capela Marta a cantar naquela bonita praça, todos os anos, e mal imaginava que, em 2012, o então Presidente Tomás Pontes, me viria endereçar o convite para a dirigir. Pedi ao Sr. Tomás que me concedesse três dias para responder à sua proposta. Pediu-me celeridade na resposta, aludindo ao momento de ansiedade que o grupo vivia. Se não aceitasse, a Capela Marta iria acabar. Estava há oito meses sem maestro e, pelos vistos, eu era a última pessoa que ele iria convidar. Se aceitasse, teria que tentar erguer o coro, cujos ensaios teriam que ser realizados à terça-feira.

Resolvo seguir o meu instinto e, como o falecido Padre Torres me havia dito que iria tudo correr bem, aceito o convite.

Com apenas 25 anos, e sendo na altura o mais jovem do coro, sou apresentado numa terça-feira de ensaio. Olhava para aqueles senhores que já não tinham tanto o bigode como moda, e tentava adivinhar o que lhes ia na ideia. Após aquecimento inicial, reparei que havia alguma desconfiança nos seus olhares. Neles, morava alguma tristeza pelo momento ao qual o coro tinha chegado, mas, lá no fundo, ainda permanecia o brilho do glorioso passado.

Estes homens que têm como pilar a amizade, foram acreditando, percebendo e testemunhando que as novas técnicas davam fruto e, passados seis meses de trabalho árduo, já eram 21, comigo 22. Segue-se a minha primeira atuação ao comando da Capela, na Igreja Românica de Rates, que termina, com a assistência de pé a aplaudir-nos. Faço a vénia, olho para trás, e vejo uma imensa alegria nos seus rostos. A desconfiança deu lugar ao sonho, à esperança, ao renascimento...

Mas por muito bonita que estivesse a ser esta “nova” história, sentia que era possível fazer muito mais... Diferente, inovador, mas próximo dos sonhos e ideais do seu fundador, António Gomes Júnior “Marta”.

A Capela Marta reestruturou-se com novos e mais elementos, aproximou a Póvoa de si, e tornou a ultrapassar as suas fronteiras. Voltou a cantar mais obras das inúmeras compostas pelos “seus” compositores, obras do “cancioneiro poveiro”, e começou a estudar algumas obras corais de célebres compositores da música clássica.

Ao longo destes oito anos de entrega, amor e dedicação, a Capela, embora “amadora”, evoluiu. Para além da intensa atividade cultural que promove na Póvoa de Varzim, tem realizado inúmeras atuações de norte a sul de Portugal e em Espanha. Editou em Novembro de 2019 um audiolivro que contém 19 das suas obras originais.

A Capela Marta continua a mesma de sempre. Preserva a sua identidade, valoriza o seu fundador e “...canta a Póvoa de Varzim.”

Tiago Pereira – Maestro

 

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