Voz da Póvoa
 
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Entre o sonho e o cansaço

Entre o sonho e o cansaço

Cultura | 27 Novembro 2025

 

Nem um dia de 48 horas bastaria para que Ela fizesse com calma tudo aquilo que, diariamente, quer fazer!

O dia começa tarde, porque tarde termina…

Oito horas de sono é um luxo que nunca lhe fora permitido gozar, não por não passar esse tempo na cama, mas por ter a consciência sempre desperta, sempre a desafiar a própria capacidade de encontrar soluções para as questões cotidianas.

Ah, e isso ela faz como ninguém, certamente é merecedora da alcunha de “Nossa Senhora Desatadora dos Nós”!

Enquanto lava a loiça, pensa na encomenda que está prestes a chegar; organiza o roupeiro enquanto rearranja mentalmente o estoque; recolhe os brinquedos espalhados, mas ali mesmo, entre bonecas e meias desemparelhadas, decide o tema do próximo post, da próxima crónica, quiçá  do próximo livro!

Cria o próximo ritual, varre o chão e espana o ar, limpando a casa da sujeira mas também das más energias, porque é mãe, dona da casa, bruxa, mas, acima de tudo isso, tem um espírito empreendedor, e empreender é dançar numa corda esticada entre o sonho e o cansaço. 

Mal abre os olhos, pela manhã, e já respondeu os clientes, resolveu a vida do marido e arquitetou uma campanha de marketing. No banho rápido, calculou custos, criou estratégias, ideias, metas.

Mais tarde, ajuda a filha nos deveres, ouvindo confidências de quem descobre o mundo e tropeça em suas primeiras dores. Aconselha o marido, não por obrigação, mas porque Ela sabe ser porto, farol e vela. E quando a noite cai, essa mulher ainda é capaz de acender a própria lamparina e criar amuletos, com mãos de fada e coração em chamas, mas também de pôr ordem às finanças, preparar embalagens, responder mensagens atrasadas. 

Faz tudo isso enquanto tenta não esquecer que também precisa se ouvir, se acolher, se amar.

Há quem tenha dificuldade em perceber que mulheres como Ela administram duas empresas: a que tem CNPJ e a que atende pelo nome de lar,  ambas exigindo a mesma competência, a mesma devoção, o mesmo empenho. É difícil notar que, entre um sorriso e outro, há uma exaustão que ela não confessa. E que, embora seja forte, não nasceu para carregar tudo sozinha.

Mas desistir nunca seria uma opção. Não por obrigação heroica em continuar, mas por acreditar naquilo que planta diariamente, na vida, na família, no trabalho que é extensão da própria alma. Ela sabe que vale muito mais do que o tempo que lhe falta. E sabe, com a sabedoria ancestral das mulheres que dançam com os ventos, que apoiar não é favor: é dever de quem divide o teto, o afeto e o destino, porque nenhuma mulher deveria ser ilha.
 
Louvados sejam aqueles que sabem estender a mão, partilhar o peso, reconhecer que grandeza também se mede em horas não exigidas.

Pois receber a mesma dedicação que se entrega aos outros não tem preço, vale mais que qualquer fortuna, e não custa nada à ninguém!

Maria Luiza Alba Pombo, escritora

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