
Segundo o poeta Alexandre O’Neill “o medo vai ter heróis”, mas lá para o fim do poema vai dizendo: Ah o medo vai ter tudo / tudo (Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer).
A inspiração para o ‘medo’ como tema central do Festival, “não enquanto elemento paralisante, mas como ponto de partida para uma reflexão colectiva sobre o mundo actual. Partindo do mote ‘Em paisagens de medo, / Os risos iluminam o caminho / Até horizontes de luz’, o É-Aqui-in-Ócio propõe um programa que questiona, provoca e convida o espectador a encarar a realidade através de novas perspectivas”, podemos ler no prospecto de apresentação do 17º Festival Internacional É-Aqui-in-Ócio, que irá decorrer entre os dias 23 de Setembro e 3 de Outubro.
Para que não ocorra qualquer metáfora que possa levar o espectador a duvidar, o primeiro dia arranca precisamente com a Companhia Certa - braço artístico da Varazim Teatro – a apresentar em estreia absoluta, "A Instalação do Medo", que se repete no dia seguinte à mesma hora, 21h30, no Cine-Teatro Garrett. O texto tem por base o romance homónimo de Rui Zink, o espectáculo parte de uma premissa inquietante: e se o medo pudesse ser instalado como um serviço, entrando nas nossas casas sem pedir licença?
A apresentação do É-Aqui-in-Ócio com a promessa de regressar às salas e ruas da cidade, mas também já confirmadas presenças nas freguesias de Balasar e Estela, assim como a possibilidade de se estender também a Amorim e Terroso, foi confirmada, no dia 29 de Julho, no Espaço d'Mente - sede da Associação Cultural Varazim Teatro, por Eduardo Faria, director artístico e responsável pela programação do É-Aqui-in-Ócio, na presença da Presidente da Câmara e Vereadora da Cultura, Andrea Silva.
“Em 2007 este festival teve a primeira edição e, de tal maneira, era impossível sabermos qual seria o futuro do festival que resolvemos chamar a essa edição, edição zero. E foi realizada, na altura, sem qualquer tipo de apoio, e a 2ª edição também”. Uma conversa com a Autarquia permitiu não só ser parceira na restante actividade, como se incluiu no protocolo “uma adenda a esse contrato de programa para que o É-Aqui-in-Ócio passasse a ser apoiado desde então. E é com muita felicidade que nós vemos que, ao contrário dos nossos medos, o festival se mostrou resiliente, se mostrou um evento cultural na Póvoa de Varzim que foi ganhando e foi cimentando o seu posicionamento enquanto evento cultural com bastante dinâmica, cativando cada vez mais, ao longo do tempo, o público”, referiu Eduardo Faria.
Revelou também que “todos os espetáculos que têm texto, têm também, desde há alguns anos a esta parte, tradução para língua gestual portuguesa”. Assim como uma maior percentagem dos espectáculos de sala contam com audiodescrição”.
Para Andrea Silva, “o teatro é um lugar de reflexão, de desconforto necessário e de encontro com o que somos. A Varazim Teatro, que comemora 29 anos, é uma organização que nasceu aqui, que cresceu aqui e que decidiu ficar aqui quando podia ter ido para outro lugar. Essa decisão diz muito. É a afirmação que a cultura de qualidade não precisa de capital para existir. Precisa de pessoas que acreditem nela, com consciência e com consistência”.
O É-Aqui-in-Ócio reúne artistas, companhias e públicos em torno de uma programação diversa na forma artística e no pensamento crítico. Ao longo de onze dias, a Póvoa de Varzim recebe companhias provenientes de diferentes pontos do país e da Europa, com propostas que cruzam teatro, teatro físico, marionetas, comédia, tragicomédia e cinema. Através de um percurso artístico marcado pela diversidade de linguagens e olhares, a programação reúne estruturas consolidadas e emergentes, nacionais e internacionais, reforçando a vocação do Festival como espaço de encontro entre diferentes culturas, sensibilidades e formas de criação.
Tem por hábito encerrar o Festival, mas desta vez no Garrett, a Companhia do Chapitô apresenta, a 29 de Setembro, "Odisseia", uma irreverente revisitação da epopeia de Homero. A 3 de Outubro, o Teatro da Palmilha Dentada traz "O 25 de Abril Nunca Aconteceu", espectáculo que propõe uma reflexão sobre a liberdade, a memória colectiva e o valor das pequenas conquistas democráticas.
A dimensão internacional do Festival ocupa, igualmente, um lugar de destaque. A 25 de Setembro, a galega Ártika Cia apresenta "Non Pasarán", uma reflexão sobre o medo e a desconfiança; no dia seguinte, a valenciana La Teta Calva sobe ao palco com "Tributo", um olhar sobre o sucesso, o fracasso e a memória. A 27 de setembro, "Super-Herói", da El Perro Azul, recorre às marionetas e às máscaras para falar de coragem e identidade, enquanto "Escupir al Cielo", da Azar Teatro, explora o absurdo e a fragilidade das escolhas humanas. A presença internacional prolonga-se até 2 de outubro com "La fortuna de estos tiempos", da Compagnie Filaromus, uma commedia dell'arte multilingue que cruza humor, crítica social e teatro político.
Pela primeira vez, o Festival apresenta a secção É-Aqui-in-Ócio OFF, uma extensão da programação oficial que reforça o compromisso com a descentralização cultural e a aproximação da criação artística às comunidades locais. Além da apresentação no Cine-Teatro Garrett, integrada na programação principal, "La fortuna de estos tiempos", da Compagnie Filaromus, vai sair à rua, e ainda "Amadeo(s)", do Teatro Art'Imagem, "Insectes", da Xarop Teatre, e "Molhos", da Kopinxas Companhia de Teatro. O Festival alarga os horizontes culturais ao cinema em parceria com o Cineclube Octopus, com a exibição, a 1 de Outubro, de uma versão restaurada em 4K de "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud - e momentos de reflexão e debate em torno do tema central da edição.
O É-Aqui-in-Ócio é apoiado pela Direção-Geral das Artes, Câmara Municipal e pela Sociedade Comercial C. Santos.