
Para Teresa Salgueiro o palco é o altar do canto, da palavra, do arrepio, da alegria, do sentimento. A voz é como se nunca tivesse abandonado aquele instrumento que nos habituamos a ouvir por outras luas criativas. Depois, há mãos que não sei se tocam piano, se é o piano que as toca. Ninguém nasce para certas melodias, creio que há um período de prenhez onde os sons percorrem um caminho até ao útero da pauta e depois depositam no instrumento a sua voz, o seu encantamento. Sílvia Ferreira soube sempre fundir-se em cada interpretação como se apenas existisse em palco uma voz ao piano. Quem, como eu, partilhou aqueles momentos no Cine-Teatro Garrett, numa noite de sexta-feira 13, só pode viver da sorte que nenhum azar teve.
José Afonso, José Saramago, Louis Armstrong foram apenas alguns nomes onde aquela voz inconfundível foi buscar os versos e algumas canções. Às vezes, explicava a origem, a propriedade atribuída a Catarina, “é uma canção que demonstra bem a solidão, a dureza, o trabalho do campo neste caso de quem recolhe os cereais do trigo para que todos nós possamos ter pão”.
pelo meio, como se atravessasse uma clareira surgia de dentro outros prenúncios tão delicados quanto os dedos ali ao lado a sugerir um infinito qualquer, um suspiro das profundezas da garganta de uma rara Senhora. A atmosfera íntima e harmoniosa criada em palco foi simplesmente admirável.
Teresa Salgueiro sempre que ia ao baú dos imortais buscar um poema, uma canção convidava a plateia a cantar com ela. Nunca passou de uma suave tentativa de uma qualquer desobrigação, parecia que ninguém queria dizer mais alto, mostrar a sua desafinação, para nunca deixar de ouvir aquela voz a voar com o corpo a dançar com as palavras. Há dias em que sair de casa é sentir-se em casa. Dizem que o amor é assim, uma casa cheia de tudo o que precisamos. Obrigado Teresa, obrigado Sílvia.
Por: José Peixoto