Voz da Póvoa
 
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Conferência “A União Europeia tem futuro?”

Conferência “A União Europeia tem futuro?”

Cultura | 9 Abril 2026

 

Por convite da Fundação Gramaxo de Oliveira, no dia 27 de Março, o ensaísta Álvaro de Vasconcelos, fundador do Fórum Demos, proferiu nesta instituição de Matosinhos, a Conferência “A União Europeia tem futuro? Dilemas existenciais num mundo de predadores”.

Álvaro de Vasconcelos foi Diretor do Instituto Europeu de Estados de Segurança da União Europeia entre maio de 2007 e maio de 2012. Alem disso, chefiou o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) do qual é fundador, de 1980 a 2007.  

Autor de uma vasta obra – livros, artigos, relatórios – dedicada às áreas da Política Externa e de Segurança Comum da EU e, nomeadamente, ao tema da ordem mundial, é Cavaleiro da Legião de Honra (França), Comendador da Ordem do Rio Branco (Brasil) e, recentemente, foi condecorado pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa com a Ordem da Liberdade.

Após a abertura da sessão por Afonso de Barros Queiroz, Administrador-presidente da Fundação, o orador convidado recordou que já tinha vindo à Fundação falar sobre as consequências da II Guerra Mundial e que, desta vez, vinha falar sobre as guerras atuais, os valores da democracia e os dilemas com que os Estados são confrontados, em particular a União Europeia.

Após as atrocidades do período 1939/1945, nas ideias pós-II Guerra Mundial, (cf. por exemplo, as posições de Roosevelt) são relevantes os pontos seguintes:

- Objetivo: acabar com todas as guerras;

- Os Direitos Humanos deveriam ser a pedra basilar da ordem internacional;

- A guerra defensiva é a única guerra legítima, sendo que a legitimidade não se confunde com a lei. A guerra passou a ser um instrumento ilegítimo;

- Tentou-se criar um sistema em que a guerra se tornasse impossível;

- Fundação da União Europeia (embora a “Comunidade” seja mais do que uma “União”);

- A ordem internacional e a bipolaridade do mundo (EUA/URSS) foram as razões da fundação da União Europeia.

O que se passou depois?

- Violação da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional, em 2003, com a guerra do Iraque (Bush).

- A grande diferença entre Bush e Trump é que Trump nem pensa pedir a legitimidade e não procurou o apoio do Congresso.

- Putin atua da mesma forma na guerra que faz contra a Ucrânia.

- Através da Ucrânia, Putin ataca a União Europeia e desenvolve uma tripla ofensiva: contra o Este, contra os EUA e contra o Interior.

- Reações da União Europeia em relação a Trump: primeiramente, uma política de sedução (alimentam o ego de Trump) e, agora, com a guerra do Irão, a Europa – inclusive a Alemanha - declara “esta guerra não é nossa”.

- Trump quer mais do que acabar com a União Europeia: ele quer destruir a União Europeia, mas esta resiste, aliás, a extrema-direita europeia não põe o euro em causa.

- Enquanto força de paz, a União Europeia tem dois pilares: tem o Contrato Social e é uma potência civil. Enquanto potência civil, a União Europeia não usa a força e foi assim que se desenvolveu, porque havia a proteção americana.

Dilemas atuais:

- As duas funções basilares da União Europeia estão hoje em discussão pelo que já não basta ser uma potência civil e a guerra com a Rússia passou a ser considerada pelos especialistas do armamento civil como provável;

- Neste contexto, a Alemanha decidiu tornar-se uma potência militar e a França prevê que o seu armamento nuclear passaria a ter uma dimensão extra francesa: a dissuasão nuclear seria alargada a outros Estados;

- Os EUA estão em confronto com a China e não se vão preocupar com a União Europeia;

- Qual o papel das potências médias que hoje são inofensivas? Como serão amanhã?

- Mantem-se o desenvolvimento dos exércitos das potências médias ou vai haver um exército europeu? A construção de uma capacidade de defesa europeia torna-se necessária.

- O Contrato Social Europeu mantém-se apesar do contexto internacional desfavorável (exemplo dos EUA e exemplo da Argentina);

- A União Europeia tenta regular a Inteligência Artificial mas também neste contexto, existe um dilema, pois mais se regula, menos de desenvolve;

- O “doce comércio” como Ângela Merkel o entendia em relação à Rússia, não existe: Trump não aplica o “doce comércio”, pelo contrário, utiliza o comércio como arma de chantagem.

A estes dilemas, encontrar respostas realistas:

- Neste mundo de brutalismo, não abandonar os nossos valores.

- Ter presente que a terra é só uma e que somos todos no mesmo barco: ideia da “humanidade comum”;

- Privilegiar a compaixão (cf. J. J. Rousseau que dizia que a civilização começou quando um homem partiu uma perna e que um outro homem o levou para um gruta);

- Face ao choque das civilizações promovido por Trump dentro e fora dos EUA e face ao discurso de Putin sobre uma alegada decadência europeia, salvaguardar o multicultural, a diversidade cultural na União Europeia e reforçar o que foi construído após a II Guerra Mundial.

- Mark Carney, Primeiro Ministro do Canadá, recomenda a constituição de coligações. Mas, para a questão do clima, não basta haver coligações: a união deve ser global.

- Face às dificuldades, impera organizar-se em comunidade (exemplo da população de Minneapolis no Minnesota).

No final houve ainda tempo para pertinentes questões levantadas pelo público ao muito saber do orador Álvaro de Vasconcelos.

A violinista Oksana Kurtash interpretou “Nigun” de E. Bloch, peça dedicada às crianças vítimas da II Guerra Mundial e uma Partita de Bach. Após o debate foi servido um Porto de Honra.

Por: Françoise Guillou

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