Voz da Póvoa
 
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Condições de Vida e Ambiências Poveiras

Condições de Vida e Ambiências Poveiras

Cultura | 1955 | 24 Junho 2020

As iniciativas de reconstituição de antigas tradições e ambiências Poveiras têm sempre grande sucesso popular. A sua realização conjuga o generoso esforço dos diversos organizadores e os patrocínios da autarquia.

Para a generalidade dos Poveiros é motivo de grande satisfação, por exemplo, na Senhora da Assunção ver a lancha “Fé em Deus” toda engalanada a sair do nosso porto com um mar de calmaria, assistir a uma encenação do serão poveiro, presenciar no dia 8 de Dezembro, a subida ao pau ensebado ou ainda em visita ao museu municipal ver a representação de uma habitação típica da família Poveira.

Contudo a evocação nostálgica do passado na recuperação de tradições populares poveiras propicia, ainda que involuntariamente, a criação de uma imagem romântica da vida de outrora.

As condições de habitação, trabalho, saúde, assistência social e até de diversão da classe piscatória eram muito diferente das dos nossos dias.

Os diversos barcos Poveiros tinham de comum a boca larga e a vela latina. Designavam-se Lanchas, Bateis ou Catraias, consoante a dimensão e a pesca a que se dedicavam. Os maiores eram as lanchas grandes – lanchões - exclusivamente voltadas para a pesca da pescada, podiam acomodar até 30 homens. As lanchas pequenas e os bateis faziam pesca costeira de sardinha. Em todos eles o trabalho a bordo era muito duro e arriscadíssimo, especialmente quando o mar se levantava. As entradas na barra constituíam verdadeiras provas de perícia e coragem em que muitos perderam a vida.

Mais do que qualquer outra profissão da agricultura ou indústria o pescador arriscava diariamente a vida. Cada ida ao mar era uma verdadeira aventura.

Quando formos ver a “Fé em Deus” ou tivermos oportunidade de nela embarcar em recreio devemos lembrar as provações, os sacrifícios e tragédias que muitas gerações passaram a bordo dos frágeis barcos poveiros.

E as famílias como viviam?

Grande parte habitava em casebres de uma só divisão com uma janela e alguns apenas com porta para rua e um postigo aberto na porta. Não tinham água canalizada. As paredes eram negras e gordurosas. A luz era fornecida por uma lamparina com a mecha mergulhada em gordura de restos de peixe - graxa - que produzia fumo negro e um cheiro pestilento para o qual contribuía igualmente o peixe seco e a salmoura.

A vida da classe piscatória era muito dura. Quando nos invernos mais rigorosos o mar não deixava pescar muitas famílias passavam fome. Algumas fechavam-se em casa, outras iam em grupo pedir esmola pelas povoações vizinhas.

As crianças cedo começavam a trabalhar. Raparigas a ajudar as mães e a tomar conta dos mais novos. Os rapazes aprendendo a fazer redes e ajudando com os aprestos de pesca.

As mulheres ajudavam a varar os barcos e comandavam as operações de divisão do peixe na praia. Muitas iam a pé para terras do interior, descalças de saia arregaçada, carregadas de sardinha para vender. Por vezes grávidas, em fim de tempo, chegavam a dar à luz ajudadas pelas freguesas.

Felizmente nas últimas dezenas de anos as condições de vida melhoraram de forma substancial, mas é preciso não esquecer o sofrimento e a luta contra a adversidade de gerações e gerações de Poveiros. Há que honrar essa memória conferindo maior realismo às reconstituições de velhas tradições e ambientes sem abandonar o aspecto lúdico que as torna tão populares.

Para terminar um lamento. A bravura do pescador Poveiro tem sido abundantemente exaltada em prosa, verso e imagem. Porém o mesmo não se passa com a mulher Poveira, incansável heroína, pilar fundamental da família.

Às “grandes parideiras de filhos para o mar”, como lhes chamou Raul Brandão, a criatividade literária não prestou ainda a merecida homenagem.

 

João Sousa Lima

 

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