Voz da Póvoa
 
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Compostela Poveira ou a Galícia Aqui

Compostela Poveira ou a Galícia Aqui

Cultura | 1952 | 13 Maio 2020

Os dias em Santiago correm parecidos aos teus. Adiante aponto diferenças. Mas deixa-me dizer antes que, o estado distópico do planeta arrancou para mim entranhado na Póvoa de Varzim. Daí me lembro, de modo infantil agora, dos receios em ser encerrado para escritas na Casa do Dr. Luís Rainha. Que fazer, como e com quem, foram apreensões insignificantes se comparadas ao gratíssimo confinamento atual.

Também foi à volta das Correntes que eu até entrei prematura – e algo bombasticamente – no assunto pandémico. Quando não havia infetados na Galiza, a imprensa sensacionalista andava à procura do caso e tive aí uma (dúbia) glória efémera por conta do vírus ao regresso da Póvoa. Mas, defraudei imprensa e alun@s, faltei apenas um dia e pensei que voltava à normalidade. Mas, logo nos mandaram a todos para casa. E o Sepúlveda acabou morrendo.

Na Galiza pegou pouco, os primeiros casos foram importados. Quando estourou forte em Madrid, os madrilenhos começaram a fugir para lugares de férias. A imprensa noticiava aqui que, em Sangenjo andavam castelhanos pedindo comidas na esplanada. Entrou o bicho mas com baixa intensidade, que nós não acarinhamos. Residências de idosos, especialmente privadas, começaram a ter números altos. E mortes. Mas o Clínico Universitário de Santiago nunca teve UCIs colapsadas. O medo espalhado pelos Media até diminuiu o trabalho regular. Sei pela mulher e um filho, residente de segundo ano, que viram reduzido serviço o em rotações preventivas de contágio. Que também se instalou entre eles, números sempre baixos se comparados com as capitais castelhana e catalã.

Mas, também Santiago, pequena vila de estudantes e turistas, mudou de repente. Nos primeiros dias, a estranheza de não ver lojas abertas, faltar estrangeiro, carros. Ver no seu lugar a aparição fantasmal do exército, em manhã com silêncios de cemitério, baixando a Rua das Hortas. Desfilaram para dar nas vistas, e a polícia nos dias a seguir começou a identificar, a perguntar para onde ias e vinhas ou moravas. Pasmaceiras de fila em supermercado. Palmas das janelas às 20h00 para o pessoal da saúde. E o filho relata que um polícia atendido se enternece e lhes chama heróis. Longe disso, é apenas o meu trabalho, realmente menor que antes, disse. Devo pensar que quando isto acabar o mesmo tipo de lágrima fácil, irá insultá-lo por a sua dor de cotovelo não ser atendida antes que o tipo com paragem cardíaca.
 
Enfim, aos menos heróis damos terapia telemática. Alunas andam com problemas de ansiedade. Um antigo estudante até me escreveu a falar de Deus. Mas abrandaram as tolices que por todos os meios disponíveis, chegavam. Na vila próxima de Ordes a Câmara Municipal teve que regulamentar horários da festa porque um DJ dava da janela show diário. E vamos a passeio. No domingo fui de bicicleta ao Monte Pedroso e aquilo era romaria. Santiago recupera a sua natureza.

Texto e Fotografia: Carlos Quiroga


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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