
Quando encontramos aquilo que apoiamos só temos que publicar.
Nos últimos 30 anos fui espectador atento da morte anunciada do livro. Não do romance ou da poesia, mas do livro físico. Aquele que tem peso, volume, textura e cheiro. Foi o advento da era digital, do PDF, do Tablet, do Kindle. Mesmo assim, o livro sobreviveu a tudo e a todos. Incrivelmente, pelo mesmo motivo que sobrevivem as poucas tascas, as livrarias e as mercearias. O foco aqui não está apenas no produto, mas na experiência, na sensação. E não há nada como ficar refém dum virar de página, admirado com uma excelente encadernação ou curioso com o desgaste amarelado de edições antigas. Pessoalmente confesso ainda um certo gosto voyeur, em ler livros sublinhados ou apontados, debruçando-me já não apenas sobre a história, mas imaginando o leitor que me antecedeu. Esta iniciativa da Junta, além da vertente ambiental, é também um acto de defesa do livro-objecto e de preservação da experiência sensorial que está subjacente à leitura. Pela adesão que tenho sentido, parece-me que “o relato da sua morte foi exagerado”, como disse Mark Twain. E no mês de Fevereiro, que se aproxima, quando seremos a Capital da Literatura em Portugal, apelo a que continuem a doar os livros usados. Contribuirão para mais bibliotecas nas Escolas e Associações, mais bibliotecas de trocas, mais ações de promoção da leitura e muitos, muitos novos leitores.
Por: Ricardo Silva, presidente da Junta da Póvoa de Varzim