Voz da Póvoa
 
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“Com Palavras Amo”

“Com Palavras Amo”

Cultura | 23 Outubro 2020

Quando amamos as palavras que sentimos. Eugénio de Andrade “com palavras amo” explicou até onde vai o sentimento poético. Entre outros nomes da poesia, como Herberto Hélder ou Ezra Pound, se abre a vontade de um outro poeta e cronista, Ademar Costa. Nasceu em 1957, no Bairro da Bela Vista, em São Paulo, no Brasil. Aos dez anos veio viver para Portugal. Primeiro no Porto, depois em Vila Nova de Gaia e, nos últimos 25 anos na Póvoa de Varzim.

Frequentou, mas não concluiu o curso de Direito da Universidade Católica Portuguesa, em 1995: “Tive como professores o constitucionalista Jorge Miranda e o Jacinto Lucas Pires”. É membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, os seus preponentes foram José Viale Moutinho e Agustina Bessa-Luís. É também membro da Associação Portuguesa de Escritores. Entre outros projectos, editou os livros de poesia “Coração Portátil” e “Os Degraus do Favo”. A sua poesia está ainda representada em revistas e antologias.

    Depois do pai ter partido para a terra da escuridão: “Vim viver com uma irmã, por parte do meu pai, que na altura não tinha filhos e o meu cunhado passou a ser o meu encarregado de educação. Há hábitos que nos ensinam e outros que se libertam de nós. Desde miúdo que gosto de livros e de fazer as minhas leituras. As livrarias passaram a ser os meus lugares de visita. Comecei a conhecer as editoras pela lombada, onde tem sempre um logotipo. Por vezes, entrava um cliente, pedia um livro, o empregado hesitava e eu olhava para a estante e dizia onde estava o livro. Sem explicação, comecei as minhas leituras pela poesia do António Ramos Rosa e, o poema que ficou para sempre agarrado em mim ‘não posso adiar o coração’, um título onde o poeta consubstancia a vida. Ou seja, não podemos adiar a nossa vida. Mais tarde, com a ajuda da amiga e pintora Graça Martins, que me fez encontrar, em Lisboa, com a escritora e poeta Eduarda Chiote, conheci o poeta pessoalmente, em sua casa. A poesia passou a ser um alimento de leitura e conheci muitos outros poetas, como o Eugénio de Andrade, de quem tenho 77 livros autografados”.

Com o tempo e a possibilidade de comprar livros, Ademar Costa foi formando a sua biblioteca. “Tenho uma biblioteca que abrevia a visão que eu tenho da vida através dos escritores, que são muitos, onde nomeio o Leon Tolstói ou a Virgínia Woolf, mas também os poetas Ezra Pound, o Eugénio de Andrade, o Herberto Hélder ou o Fernando Pessoa. Sem menosprezar ninguém, estes autores marcaram-me, tanto a sua prosa como a poesia. Há uma certa realidade social que podemos acrescentar às palavras. Com o avolumar dos livros na minha biblioteca, comecei a interessar-me, em certa altura, pelos livros autografados pelos autores. Depois, acrescentei aos meus dias alguma correspondência com poetas como o Eugénio de Andrade”.

E recorda: “Em edição de autor tinha publicado um poema em formato postal e ofereci a um colega de trabalho, que o fez chegar ao Eugénio de Andrade. O poeta acabou por pedir o meu endereço e acabamos por trocar uma breve correspondência através de bilhete-postal. Esta troca de palavras acabou por trazer uma série de amizades e conhecimentos com pintores, poetas e escritores. A vida depois oferece-nos pintores a entrar pelo campo da escrita, como intervenção social. Como é o caso do pintor Agostinho Santos e em sentido inverso o Valter Hugo Mãe que começou por escrever e hoje também pinta. É esta relação que eu tenho com a cultura. A água, a terra, o fogo e o ar, são os quatro elementos essenciais da natureza. Para mim as palavras são o elemento fundamental da natureza humana”.

O contacto com os livros e os autores acabaram por plantar poemas, que presos à razão em ‘Coração Portátil’ se expuseram: “Fiz uma edição de autor que acabou bem recebida e comecei a participar em várias antologias de poesia. Depois, experimentei alguns formatos editoriais. Fiz uma colectânea com o poeta Fernando Peixoto, em forma de folhas volantes. Comecei a gostar de editar poemas em bilhetes-postais e fiz também uma incursão por alguns concursos de poesia, não com a vontade de ganhar, mas apenas por participação social. Através da poesia podemos sempre dar opiniões sobre a sociedade e a realidade em que vivemos. Claro, mantendo a própria opinião, não tem que ser uma opinião geral ou estar obrigada a este ou aquele cânone”.

O segundo livro aparece alguns anos depois arrastado por uma quase obrigação, conta Ademar Costa: “O amigo Pedro Barbosa, que deu aulas na Universidade de Siena, em Itália e é considerado o maior especialista português em Ufologia (discos voadores), foi a minha casa em Vila Nova de Gaia e, escreveu um prefácio que, para mim, vale mais que o livro. Na altura, fiquei tão sensibilizado com as palavras dele e os conhecimentos que demonstrou de poesia que, senti a obrigação de editar ‘Os Degraus do Favo’, mais pelo prefácio do que pelos meus poemas. Acabou por ser uma súmula do que já tinha publicado”.

Há no poeta um cronista, mas também o gosto de colaborar no correio do leitor. “A minha primeira participação no Correio do Leitor foi no Jornal de Notícias em 2011, onde resolvi dar a minha opinião sobre a ocorrência de um crime. A seguir foi no jornal A Voz da Póvoa a 8 de Agosto de 2012. Comecei a ter ainda mais gosto porque foi publicada a minha opinião em dois jornais de referência, um de publicação nacional e outro que honra o título que ostenta”.  

Ademar Costa, entre outras curiosidades históricas que gosta de pesquisar, tem um interesse raro por nomes: “Nascemos sem ser consultados e temos um nome que não escolhemos. Ou seja, carregamos um nome que por vezes até pode ser incomodativo. Na escola primária tive um colega com o apelido de Rato e outro, o apelido Camelo, ambos estavam sempre a ser incomodados. Na altura não se falava em Bullying. Carregamos um nome e, o nome carrega a nossa vida. Há nomes muito curiosos como Esfragénio e Liliosa. Não é bem Romeu e Julieta. Hoje há a facilidade de mudança de nome, mas as pessoas raramente o fazem, devido às questões burocráticas”.

E acrescenta: “Os nomes também são palavras. Há pessoas mudas que comunicam entre si, mas para quem está habituado a usar a palavra como meio superior de comunicação, acho que um mundo sem palavras ia ser uma nova pandemia, porque é bonito ouvir um inaudível não, ou um fulgurante sim”.

Para Ademar Costa haverá sempre um livro quando do silêncio a porta se abrir: “Estará um rabo escondido com o gato de fora. Tenho optado na escrita, mais pela intervenção social. Se um dia o fizer, voltarei a editar a chamada poesia reunida com alguns inéditos e com outro prefaciador. É uma viagem que poderá ter um ou outro texto em prosa, mas mantendo a linha de força de alguns poemas que compõe todos os lados da minha vida, uma espécie de súmula. Tal como escreveu o poeta José Fontes Novas ‘o único exagero que a vida tem, é ser tão curta’. A vida tem uma finitude. Podemos viver com muita intensidade, mas como nascemos sem ser consultados, temos um nome sem o ter escolhido, vamos morrer sem saber a data. Temos aqui uma trilogia que não deixa de ser fantástica, mas também assustadora na parte final. Quando vamos morrer? Era bom que não fossemos ao funeral um do outro”.

 

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