
E se uma vaca voasse, faria o ninho numa árvore? A ficção tem destas interrogações, mas será só na ficção que é possível surrealizar? Na verdade qualquer tema nos traz à superfície um passado, uma ideia, um conto, um poema, um autor, desta vez para conversar sobre “A Arte na Expressão de Natal”.
Nuno Higino, licenciado em Teologia e doutorado em Filosofia Estética, é poeta e por natural acréscimo filósofo, entre algumas dezenas de publicações a poesia e a literatura infanto-juvenil marcam a sua obra. O convidado do 17.º Ciclo Aberto realizado, no dia 19 de Dezembro, na Fundação Dr. Luís Rainha, reflectiu sobre a arqueologia da descoberta e os diversos cruzamentos da arte, da cultura, da filosofia que nos traduz toda a contemporaneidade.
Para início de conversa, o coordenador do Ciclo Aberto, Aurelino Costa, recitou um poema do convidado: “Hoje brinquei o dia todo, levantei o sol com os dedos, empurrei-o quanto pude para cima, fiz-me uma rima, voltei-me para trás, a minha idade não me sei, só sei que é Maio, e hoje brinquei o dia todo, corri, saltei, saltei o sol, caminhei como quem dança, voltei a ser criança”. Gosto deste poema, mesmo que alguma palavra se esconda no silêncio e me obrigue a inventá-la.
Arte é voltar a ser criança, esse adulto que não sabe lutar: “Isso de querer voltar a ser criança é uma impossibilidade absoluta. Porque um adulto nunca tem pernas em idade nenhuma. Em circunstância nenhuma tem pernas, tem imaginação, tem coração para voltar a ser criança”.
Vontade não nos falta, “e se ficou lá atrás, nós vivemos sempre muito dessa nostalgia, mas é uma impossibilidade absoluta. Porque o infante é aquele que não fala, que não tem o domínio da linguagem, do código da linguagem. E, a partir do momento em que adquirimos conhecimento do código da linguagem, isso altera completamente a nossa vida. Portanto, é impossível em qualquer situação, em qualquer idade, viver como se estivéssemos ainda numa situação sem código. Agora, recuperar essa inocência de idade da infância, há muitos artistas que a procuram desenhar como crianças”.
Nuno Higino também não concorda com a tese do Bom Selvagem: “Existe um pouco essa ideia, de que nós nascemos naturalmente bons e depois a cultura nos traga. Acho que é ao contrário. A cultura aperfeiçoa a natureza, não traga a natureza, embora a cultura possa tragar-se. Há aspectos da sociedade que podem estragar aquilo que nós lhe damos por natureza. Nós somos melhores porque somos seres culturais”.
O Natal, a sua expressão, reposição, o imaginário envolveu imensos artistas ao longo dos séculos, na música, na escrita, na pintura, na escultura, no artesanato: “Rosa Ramalho tem presépios lindíssimos. Aqui põe uma pombinha, ali põe um jerico. Enfim, é realmente o repetir, o repetir e pôr a marca pessoal”.
No nosso tempo nunca se falou tanto da diferença, “da importância da diferença, e dos direitos da diferença. E nunca as coisas foram tão iguais, tão globalizadas, tão niveladas. E isto deve fazer-nos reflectir, porque realmente nós devemos lutar pela diferença, mas lutar pela diferença é repetir boas coisas, aquelas coisas que são para repetir, até elas se transformarem por si próprias, abrirem uma espécie de movimento próprio, que as altera, que vai alterar aquilo que é a nossa vida, que é a vida da sociedade, que é a vida das pessoas”.
Durante séculos alguém nos convenceu que Deus nos dispensou de buscar a verdade, e para Nuno Higino, “o pior inimigo da verdade é pensar que se encontrou a verdade. Uma pessoa que encontrou, não procura mais”.
Por: José Peixoto