Voz da Póvoa
 
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Canto da Maya: Uma Forma de Aproximação à Felicidade

Canto da Maya: Uma Forma de Aproximação à Felicidade

Cultura | 20 Outubro 2020

Os museus e seus núcleos estão de novo abertos ao público em Ponta Delgada, após três meses encerrados. Reabriram em plena fase inaugural do período estival, momento em que já se avista a alvura dos garajaus no céu em redor tal como retornam os cagarros com os seus sons peculiares, autênticos rumores misteriosos de um mundo por desvelar. Estamos, portanto, no verão, a humidade prospera de forma acentuada e a função de respirar por aqui, torna-se, inclusive, mais pertinente à sombra, ainda que nem aí se desprenda uma pequena brisa. O que é que nos aguarda após passeio dominical?

À entrada do Núcleo de Santa Bárbara um grande letreiro anuncia a presença de dois vultos açorianos em exposição: Canto da Maya e Domingos Rebelo. É assinalável o conjunto de obras reunidas em torno de Canto da Maya, provavelmente a mais extensa realizada nestes últimos anos, dado que sempre houve uma sala permanente dedicada ao escultor. Registe-se nesta exposição a beleza idiossincrática de algumas das suas peças escultóricas: “Bendito Seja o Fruto do teu Ventre” (1922), “A Dança e a Música” (1926); “Adão e Eva” (1929), “Baiser ou Idílio” (1934) ou “Náufrago” (1942), entre tantas outras. Assim, são vários espaços expositivos dedicados a esta figura relevante do modernismo português do início do século XX.
 
Na abertura da exposição, deparámo-nos com uma fotografia de Canto da Maya muito jovem, rodeado de outras personalidades que viriam a ser significativas para o universo das artes dos Açores. O escultor Canto da Maya nasceu em 1890, viveu a sua vida entre Lisboa, Paris e Genebra. O escultor micaelense afirmou ter feito a sua escolha artística à conta da sua mãe, fez os estudos liceais em Ponta Delgada, concluídos em 1907, partindo depois para estudar na Escola de Belas Artes de Lisboa, realizando assim o Curso Geral de Desenho no ano de 1911. Um ano mais tarde, parte para Paris e depois para a cidade suíça de Genebra, sempre com a intenção de estudar Belas Artes, onde conhece o professor James Vibert, associado ao movimento do simbolismo. Ainda na sua estadia na cidade das luzes, com domicílio permanente em Boulogne-sur-Seine, viria a obter o Grand Prix de Sculpture, em 1937. Em 1940, enceta uma deslocação no seu percurso estético já que participa na Exposição do Mundo Português com obras de enaltecimento patriótico, realizando três anos depois uma exposição a título individual no Secretariado de Propaganda Nacional. Após ter estado novamente Paris, regressa, em 1953, aos Açores e firma residência em Ponta Delgada, onde viria a falecer em 1981.

Recentemente encontra-se disponível na plataforma do you tube o documentário “Himne d´Amour”, com a colaboração de Isabelle Canto da Maya e realizado pela Fundação Oriente e Museé Municipal de Boulogne Billancourt. “Canto da Maya merece um lugar melhor na história da arte do século XX”, é dito logo na sua apresentação, contando ainda com vários depoimentos de artistas e amigos deste. Tanto o documentário como a exposição dão conta do trabalho singular deste autor, essencialmente o seu labor à volta da figuração bem como da expressividade dos vínculos entre as pessoas, dos sentimentos e laços que estas mantêm entre si, da suavidade e delicadeza dos afectos, corporizando uma escultura de representações afectivas, pautando, assim, o seu discurso escultórico pela beleza e a busca e aproximação incessante da felicidade.
 
Texto: Fernando Nunes
Fotografia: Carlos Oliveira

 

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