
A riqueza por muitos brilhos que ela tenha nunca será maior que a capacidade de entender a inquietação do outro e o desassossego do mundo. Os poetas na Grécia Antiga não eram vistos apenas como escritores ou artistas, mas como seres sagrados e inspirados pelos Deuses. Eles exerciam funções de profetas, guardiões da tradição oral e educadores, sendo considerados detentores da sabedoria ancestral. Entre a poética e o saber abriu-se um mundo novo bem capaz de nos envolver em aturadas pesquisas que dão à estampa novas obras, novos conhecimentos.
Haverá outras razões, mas dar a conhecer autores e novos livros é também motivo suficiente para o Presidente da Fundação Gramaxo de Oliveira, Dr. Afonso de Barros Queiroz, convidar a Professora Doutora Helena Carvalhão Buescu, Professora Emérita de Literatura Comparada da Universidade de Lisboa, e autora do livro “Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas”, publicado com a chancela da Tinta-da-china e apoiado pela Universidade de Macau.
A responsabilidade da apresentação da obra, que decorreu na sala de conferências da Fundação, no dia 6 de Junho, coube ao Professor Doutor Cardoso Bernardes, Catedrático da Universidade de Coimbra, chefe da Estrutura de Missão do quinto centenário do nascimento de Camões.
Cinco séculos é já por si uma eternidade, mas ela não vive por si só, precisa dos leitores primeiro e depois de todos aqueles que buscam uma melhor compreensão do autor, de forma a aproximá-lo cada vez mais do futuro.
Numa curta sinopse, “Partindo do conceito de negative capability, de John Keats, propõe-se neste livro uma leitura que percorre Os Lusíadas como construção que estreitamente alia, por um lado, o canto dos feitos dos Portugueses e, por outro, o tema do desconcerto do mundo. Este tema, importado da lírica, torna-se o núcleo da reflexão poética no texto épico e permite compreender como Camões Poeta se manifesta, ele mesmo, como herói na sua epopeia. O canto e o desconcerto são, assim, forma de subjectivização d’Os Lusíadas, levando o Poeta a louvar os que são dignos de integrar o Poema, mas também a expulsar deste aqueles que o não são. É este o terreno das incertezas, dos mistérios e das dúvidas a que Keats se referira a propósito de Shakespeare. A esta tese central associam-se ainda as múltiplas imagens de Camões, a «insolação sublime» (Eduardo Lourenço) que ele representa, até hoje, na literatura portuguesa, e a sua presença no Oriente”.
Deixo-vos com um pequeno fragmento do livro de Helena Carvalhão Buescu “Através do tema do desconcerto do mundo, é mais uma interferência a todos os títulos decisiva da lírica na ética que assistimos, e a uma modelação de um tema que Camões trouxe para o âmago da sua produção lírica, e afinal, também da sua produção épica. É este sujeito axiológico que a figura do poeta representa em vários pontos próximo de emudecer devido à violência do confronto com o desconcerto do mundo em que vive e que não pode calar”.
Por: José Peixoto
Fotos: Rui Sousa