
“Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme...” Poema ‘Inscrição’ de Camilo Pessanha editado no livro Clepsidra.
Desta vez a arte poética do escritor que nasceu em 1867 em Coimbra (a morte não é data que se anuncie), foi o mote da conferência “Camilo Pessanha a Três Vozes”, realizada no dia 23 de Maio, na Fundação Gramacho de Oliveira, em Matosinhos. O seu presidente, Dr. Afonso de Barros Queiroz, agradeceu a presença de uma plateia interessada e honrou o compromisso de apresentar os convidados oradores: Prof.ª Doutora Maria Antónia Jardim, autora da tese “Camilo Pessanha – Um educador épico-ético”, publicada pela Fundação Macau; Doutor Mário Matos, Presidente da Liga dos Amigos do Centro Científico e Cultural de Macau, e Mestre Rui Carvalho, editor em Macau de múltiplas obras sobre Camilo Pessanha.
“Não se respirava ainda o cheiro do ópio, dos mercados, dos labirintos, enfim, do mistério, e daquela luz estéreo, quando eu percebi a luz da luz, num país perdido, foi um deslumbramento, nós sentimos isso, de facto, em 1999, com esse Macau onde cheguei”, para Maria Antónia Jardim, a poesia de Caminho Pessanha é Macau.
E acrescenta: “Começamos a ver o épico em que ele observa. A experiência da luz significa, por excelência, o encontro com uma habilidade positiva. E essa é a razão de descobrir a luz interior quando se toma consciência do sinistro. Nesta circunstância, o véu da ilusão, aqui temos Platão, a ilusão, a caverna, a essência, as sombras e as essências é aquilo que é realmente atingido de outra maneira, o véu da ilusão e a ignorância é rasgado e, bruscamente, um homem é cegado pela luz branca, ou seja, mergulhado no ser. Exactamente como nestes véus que são um deslumbramento”.
Mário Matos abarcou um pouco a presença portuguesa em 500 anos: “Salvou-se por uma evidência única, que permitiu o fecho do Império de maneira perfeita. Isto é, em perfeita harmonia com as actividades do outro lado, dos chineses, que no fundo reconheceram aos portugueses uma vivência histórica muito respeitadora”.
E deixou bem vincado que, “Macau é um pódio que não é simbólico. E, sobretudo, aparecem sempre figuras, como o Caminho Pessanha que representa muito, naquela altura, um sentimento. O afastamento da pátria não é tão grande como parece. Estes poetas, estes escritores levaram para Macau e criaram em Macau, um ambiente muito favorável, um diálogo que era preciso compensar. Além disso, em Macau, criámos uma tribo, uma raça. E uma raça vem de uma instalação do português dos chineses, o que significa que o português é uma alma muito, muito grande. E sabe-se que os chineses, ao longo do tempo, souberam seguir aquilo que Portugal deixou”.
Por último o editor, Rui Carvalho, destacou o facto em relação à edição de Clepsidra, “onde ele não teve nenhuma responsabilidade. E, portanto, eu acho que vale a pena realçar este aspecto. É certo que não existia em Camilo Pessanha, a mais pequena ideia ou vontade de compilação da sua poesia, e muito menos em forma de livro”; E conclui: “O título Clepsidra, em que se dá ao Prelo o trabalho de concretizar por terceiros, é, enfim, o seu poema absurdo. Obviamente que a palavra já há muito fazia parte do seu léxico semântico. No entanto, é um encanto ver pela primeira vez este mecanismo do tempo no poema – Lento, gota a gota, instrumento poético do silêncio”.
A abrir com o Mar e a fechar com a Ilha e o Vento na Guitarra de José Peixoto.
Texto: José Peixoto
Fotos: Rui Sousa