Voz da Póvoa
 
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Be Gentle ou a Arte Pelos Caminhos da Igualdade

Be Gentle ou a Arte Pelos Caminhos da Igualdade

Cultura | 16 Abril 2022

Ana Romero não ferve em pouca água, mas “Tenho o restilho mais curto quando se trata de violência, seja qual for”. Sobre violência doméstica pensou que seria bom que a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, tivesse um olho pisado: “Qual seria a nossa reacção como espectador, observador. Será que a Mona Lisa perdia aquela aura. O que vemos na arte são sempre demonstrações masculinas de ideais femininos. Ou é a mãe dedicada, submissa, isenta do pecado ou é a representação do mal, a mulher tentadora, a pecadora depois da maçã. É sempre essa dicotomia entre a mulher anjo ou anjo caído”.

Para nascer não temos o dom da escolha, mas viver onde ou partilhar com quem, podemos sempre lá chegar: “A linha dos direitos que nós achamos que adquirimos é muito ténue. É importante pensar que de um momento para o outro podemos deixar de os ter. Há países onde as mulheres sofrem muitas pressões. Basta pensar no retrocesso civilizacional que aconteceu no Afeganistão depois da debandada dos Estados Unidos. Mas agora, estamos preocupados com outras guerras e esquecemo-nos disso, das mulheres afegãs. São coisas que me fazem aflição, porque nem todas as mulheres tiveram a sorte que eu tive, de nascer no lado bom. Pude estudar, escolher a vida que quero, até divorciar-me e não há impedimentos sobre isso”. 
 
Depois de fazer o percurso pelas escolas poveiras, estudou o bastante para leccionar artes visuais, sim as que se vê e imagina: “Não tenho nada contra a arte que se preocupa só com o prazer estético ou em decorar paredes. Mas, a minha perspectiva é que a arte possa ter também uma função social. Daí, pensei fazer na Filantrópica, de 16 de Abril a 31 de Maio, a exposição colectiva ‘Be Gentle - Diz Não à Violência Doméstica’, o mesmo título da campanha da Papillon, uma marca de cosmética masculina. Esta exposição temática obriga-nos a pensar e a repensar certos conceitos que temos como adquiridos. Muitas vezes não saímos da nossa linha de conforto como artistas. A intenção foi fazer mexer 6 homens e 6 mulheres onde me incluo, artistas de vários quadrantes, desde a fotografia, pintura, escultura, e obrigá-los a reflectirem, mais importante ainda, a mostrarem o resultado dessa reflexão ao observador”. 
 
Ana Romero que também é Carina vai mais longe: “Podemos falar da violência literal, aquela que todos nós sentimos repugnância e achamos que o ideal seria desaparecer. O facto é que há muitas pessoas que quando veem determinadas obras de arte, ficam incomodadas porque não são bonitos esteticamente, ou representam o feio. O chamado belo-horrível. Fazem-me muitas vezes esta pergunta – porque é que pintas sempre as mulheres tristes? No entanto, só não compram pipocas, mas quando se sentam no sofá a assistir à guerra em directo, admira-me que não se sintam incomodadas por verem pessoas com estilhaços na cara ensanguentada. As pessoas acham normal a violência do cinema, porém na pintura ou na arte quando alguém as incomoda, há um virar de costas, uma atitude de repulsa. É como se as pessoas quisessem ver na fantasia uma realidade que não existe”.

A artista que também faz nesta exposição o papel de curador revela que a provocação é menos ilustrada: “Há uma conciliação entre o antes e o depois, tem aquela violência que não é chocante. Eu sou fã do pintor Francis Bacon, exímio a pintar sangue e caras completamente deformadas, o feio mesmo. A antítese do que é a beleza. Ele pintava-se a si mesmo, à realidade e à vida dele. Há muita gente que não gosta de Francis Bacon, assim como de Paula Rego, principalmente quando retratou o aborto, embora fosse tela, tinta, materiais que estão a simular uma realidade, as pessoas ficavam incomodadas. Agora imaginemos a realidade. Isso faz-me confusão, fico a pensar que estão na realidade a ver um filme, uma ficção”.

Embora se espreite a realidade, estamos sempre a ver do lado de fora. Temos que perceber o ping-pong das televisões, que mudam de foco consoante as audiências: “Esta exposição calha no momento certo, podia ter acontecido quando os talibãs tomaram conta do Afeganistão, ali a reconquista foi rápida e as mulheres foram as maiores perdedoras. Na Ucrânia foi-lhes dada a possibilidade de fugirem, de recomeçar a vida noutro sítio. O que também é uma brutalidade”.

É brutal e absurdo falar em corredores humanitários, passe pela Avenida Mousinho, a Junqueira está a ser bombardeada. Aceitamos isto como uma normalidade: “A palavra diplomacia incomoda-me, tratar das nossas vidas em negociações de paz, enquanto isso vão financiando a guerra”. 

A Arte do Acontecer é Também saber Esperar

“Não quero parecer pretensiosa, mas interessa-me muito expor lá fora. Estou convencida que só somos valorizados quando isso acontece. De um modo geral estou sempre quieta no meu canto, às vezes leio informações sobre como participar numa bienal e se me agrada, concorro. Participei na bienal Eixo Atlântico, entre o norte de Espanha e o norte de Portugal. É muito exigente participar. A exposição foi feita na Galeria Municipal de Arte em Barcelos. No último dia convidaram os artistas para uma tertúlia, para falar das suas obras. Apareceram muitos convidados, professores de artes, alunas que queriam seguir artes. Fizeram muitas perguntas interessantes, não só sobre a obra, mas sobre o nosso percurso. Isto é fazer cultura e neste aspecto tenho que dar os parabéns à organização, que para além de criar o evento, fez com que os intervenientes tivessem voz activa. A bienal Eixo Atlântico esteve em Barcelos, passou por Viana do Castelo e vai para Braga. Até ao mês de Agosto vai passar em mais duas ou três cidades e segue-se Espanha. Acabas por mostrar o teu trabalho em várias cidades, entre Portugal e Espanha”, afirma Ana Romero.
 
Entre outros lugares do mundo, expôs na Índia e em Londres: “conheci através das redes sociais, o indiano Harpreet Singh Aurora, que me convidou a participar numa exposição virtual ‘Eudaimonia’ no Instituto Camões – Centro Cultural Português de Nova Deli. Também tive a sorte de concorrer e expor em Londres. Fui à inauguração num dia e vim no outro. Quando regressei, duas pessoas opinaram sobre o meu trabalho e o facto de ter estado naquela cidade. Tens uma pessoa generosa que diz se tu fores bom, não tens que ser o melhor do mundo, as coisas acontecem, as pessoas procuram-te. E outra pessoa diz que tu não te soubeste mexer. Isso ofendeu-me porque eu acho que as pessoas não têm que se mexer. Eu quero que as coisas aconteçam naturalmente, com trabalho, com sinceridade. Comigo sempre aconteceram, só a arte me ocupa. Hoje em dia, marcar a diferença é muito difícil. Há pessoas fabulosas, há jovens a fazer coisas extraordinárias e a toda a hora”.
 
A arte é a procura de nos entendermos, mais do que olhar o outro é olhar dentro de nós. Quem pinta, quem escreve, quem toca, está de certa forma a ser autobiográfico: “Há uma necessidade de identidade. Ou estamos dentro ou fora. Ou nos revemos nas pessoas com quem estamos ou estamos fora de nós”.

Quando se tem uma certa maturidade, uma viagem meia feita, há um divertimento sem pressas. Um percurso que deixou raízes: “O reconhecimento não passa por um caminho programado, por vezes chega de onde menos esperas”.

Nenhum futuro se constrói sem os alicerces do passado, reconhece Ana Romero: “Na verdade, desperta-nos muito mais curiosidade o nosso passado. Ir a Marte é um caminho futuro que a acontecer, não surpreende. É uma questão de sobrevivência. O nosso cérebro talvez não nos permita saber muito sobre o futuro para podermos estar aqui com alguma tranquilidade. Saber do futuro seria desinteressante e desmotivador. Pergunto muitas vezes como será a arte do futuro, mas não faço a mínima ideia, creio que acabará por ter uma raiz no passado. Daí a interrogação”.

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