
A vida também nos acontece recriando, mas é no desassossego, na procura, na certeza de que do outro lado do rio há outra margem. Como atravessá-lo? Onde estão as pontes? Que é feito do barqueiro? Pelo caminho das pedras, entre transparências e incertezas viemos da história das civilizações até aos dias inquietos a reconfigurar cada momento, cada documento, cada interpretação em queda ou elevação.
Acontece que não é a memória que é curta, somos nós que nos alongamos na falta dela. Ouvimos palavras que parecem pensadas, mas são pesadas na balança das intenções. Por isso, não deveríamos ficar surpreendidos por abrir uma lata de sardinha e encontrar lá dentro a bandeira de Portugal, ou olhar um cravo a pedir, não sei se mais uma revolução, se voltar ao jardim do Jiménez, um escritor que gostava de flores ao peito. Os artistas não são políticos, confrontam a política de tal forma que são capazes de passar na rua e ver o Carl Marx a tocar acordeão e a mendigar o pão, o Dali no seu habitual delírio ou Pessoa e Camões a sair de casa.
As “Recriaturas” de João Rios são aviões de combate desamados, sereias cheias de boas intenções a dar ao rabo, à espinha, pássaros a fumar cachimbo e a mostrarem-se capazes de ser actores em qualquer filme. Há jornais com cabeça e bailarinos lançadores de peso a equilibrar-se ao espelho. São visões flutuantes, por vezes à superfície, outras bem distantes. Horas, quantas mil à procura de surrealizar os dias, as comédias políticas ou a simples oração do medo de nos encontrar fugindo ou combatendo as ditaduras sem rosto. Se o piano falasse diria – são pretas e brancas, tal como no xadrez – mas só os melhores pianistas recebem o cheque por terem dado vida a alguém.
Não é sempre assim, o Blandino Soares com a sua guitarra e harmónica deu voz aos poemas do Joaquim Castro Caldas sem cobrar. Não estava previsto, mas o imprevisto é sempre bem-vindo. A tarde do dia 11 de Julho era de inauguração da exposição “Recriaturas” do poeta João Rios, que desta vez decidiu escrever poesia com uma tesoura, e como os amigos são para todas as ocasiões compareceram em massa, sem massa, mas cheios de inspiração e aplauso pela coisa amada. “O que nos poderá salvar nos tempos que correm, cada vez mais, será a imaginação, será a arte, será a cultura a repor alguma normalidade”. Para João Rios “este quotidiano mútuo parece quase um hospício de porta aberta”.
Depois, saiu da gaveta o colectivo. A Rock Pires trouxe a chuva dentro de um pau, o Tiago Pereira despiu a conceituada batuta de maestro e disse aos dedos para dançarem nas cordas do violino, quanto ao José, o Peixoto da guitarra, aquele que escreve estas palavras, foi ao baú buscar as composições e com os outros instrumentos ilustrar os poemas do João Rios, ditos pelo próprio, e no final o ‘Walking Around’ de Pablo Neruda. Um regresso do Colectivo Silêncio da Gaveta à casa onde moram os livros e que sempre nos soube receber bem. Um agradecimento à directora da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, Lurdes Adriano, por ter tornado possível o acto de mostrar ‘Recriaturas’, e a Daniel Curval que ajudou a curar a exposição. As fotografias e uma ajuda extra são de Rui Sousa.
Até ao dia 7 de Agosto, na galeria da Biblioteca Municipal, não há ouro, há quimera com as ‘Recriaturas’ do João Rios.
Por José Peixoto
Fotos: Rui Sousa