Voz da Póvoa
 
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As Palavras do Barro

As Palavras do Barro

Cultura | 1921 | 28 Agosto 2019

Alice Diniz Heitora nasceu em 1964, numa aldeia do concelho de Torres Vedras. Estudou o suficiente para se fazer entender no mundo. Depois apareceram os subsídios da CEE para recuperar as escolas de ofícios e foi para Aveiro, moldar o barro na fábrica Aleluia, o ninho que permitiu remontar estas escolas com o teor de cerâmica. Com o tempo, as mãos retiraram do barro as mais belas inspirações, que podem ser vistas e adquiridas em exposições e feiras de artesanato, entre as quais Vila do Conde.

A Voz da Póvoa – Dizem que descendemos do barro moldados pelas mãos de Deus…

Alice Diniz – De facto, nós somos barro. Os nossos ancestrais transformaram-se em terra. Na criação do mundo, Deus fez o barro e fez-nos a nós, mas depois nós, obra ou sopro divino, pegamos no fogo e fizemos a cerâmica. Já não é uma coisa de Deus, mas uma coisa do homem. Uma transformação mais pacífica que o plástico, que o dinheiro ou do que todas essas transformações que o homem é muito hábil em fazer. A cerâmica poderá ter sido das primeiras criações e ter nascido do acaso. A fogueira ao pé do barro que cozeu e, depois, a curiosidade humana a criar e a transformar.

AVP – A viagem do barro até à cerâmica é uma transformação pacífica?

AD – Eu tenho um processo muito manual. Uso poucos instrumentos, que ajudam a modelar, e os que uso são todos orgânicos, muito papel de jornal. Tenho dificuldade em repetir as coisas. Cada peça tem que permitir um gesto diferente da outra. Temos que nos deixar ir e entrar em outros mundos. Na cerâmica gastamos o tempo entre a ideia e o fazer até ao cozer. O barro é como a pessoa, precisa ser respeitado em todas as suas etapas. Somos tão semelhantes que só temos que acreditar que viemos do barro.

AVP – Olhar para uma das suas criações é ver um poema materializado?

AD – Há peças que na minha intimidade têm outros nomes. A Menina da Lua é a Alice na Lua. Quando quero dar poesia a uma peça, trato de transmitir o nosso potencial de vida. Eu também gosto de escrever, mas tanto um mundo como o outro são muito exigentes, obrigam a muito elemento, muita disciplina e muitas horas. A cerâmica apela-me mais. É natural que as palavras se revelem no barro.

AVP – Ainda fica agarrada às peças que vão saindo das mãos para o cliente?

AD – Preciso fotografar muitas vezes antes de as ver partir. Uma peça é como um filho. Queremos sempre o melhor para os nossos filhos, que encontrem a linha do amor, do futuro. Quando aparece um cliente que tem o perfil da peça, sabe bem perceber que a obra ficou bem entregue. O meu retorno é o valor que me pagam. Esta é a minha forma de vida, moldar-me em ideias de barro pelas casas.

AVP – As mãos transformam tudo o que os olhos vêem?

AD – A palavra copiar é muito feia, mas na realidade não temos como fugir. O importante é partir do copiar para o agir à sua maneira. Agora, até temos uma palavra muito interessante que gosto de utilizar nos textos que escrevo: ‘Apropriar’. Assim, aproprio-me do conceito, do que está inerente à própria palavra, o acto de deixar germinar a partir dela. Quando passa nos olhos uma imagem que me chama e me diz que também quero fazer aquilo, aproprio-me dela e dou-lhe a minha identidade. Mas é o material que estou a trabalhar que determina aquilo que vai nascer e muito do que sou como artista.

AVP – As peças que cria não estão mais próximas da escultura que do artesanato?

AD – As peças que tenho na Feira de Artesanato de Vila do Conde posso tê-las numa galeria e o preço é o mesmo. Há quem diga que os lugares têm linguagens diferentes e por isso as peças em exposição também o deveriam ser. Não faço disso um tabu. Quando estamos a lidar com um criador, o espaço não é importante, mas a sua arte. O importante é que em cada fornada a arte sobreviva ao ser. Nós somos finitos, a arte pode sempre chegar mais longe. A arqueologia encontrou peças de cerâmica secular.

AVP – Se o rio corre por onde a margem o permite, por onde vai Alice?

AD – Fui por onde a margem me encaminhou. A minha formação em olaria permitia-me fazer tudo, mas na realidade só faço aquilo que me apetece. Sei as peças que têm melhor venda, mas tenho prazer em ensaiar e descobrir coisas novas. O trabalho escraviza-nos e tira-nos muita visão periférica.

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