
A Fundação Dr. Luís Rainha realizou, no dia 20 de Março, o 18º episódio do Ciclo Aberto dedicado ao Ciclo Camiliano – 200 anos de nascimento de Camilo Castelo Branco. Para o primeiro de três episódios foi convidada a investigadora Manuela Espírito Santo para uma conversa sobre “As Mulheres na Vida de Camilo”. A coordenação, como habitualmente, coube a Sousa Lima e Aurelino Costa que “deslumbrado pela metáfora” apresentou a porta-voz de uma ideia camiliana.
A figura humana do escritor filho bastardo, nascido em 1825, em Lisboa, foi amplamente analisada na vertente do amor amante e de paixões quase sempre intensas e trágicas. O certo é que Camilo atraía ou sentia-se atraído por mulheres, algumas das quais se tornaram inspiração para os seus livros. Joaquina Pereira foi a sua primeira esposa, mas partilharam pouco a vida, casaram, ela tinha 15 anos e ele 16. Mais tarde, escreveu que “amor aos 15 anos é uma brincadeira”, mas para Joaquina foi uma tragédia. A segunda mulher chamava-se Patrícia, sensível e com vocação para o canto e o piano. Quando Camilo se apaixonou por ela num sarau, decidiram fugir para Coimbra, mas foram presos no Porto e foram parar à cadeia da Relação, onde Camilo voltaria mais tarde com tempo para escrever muitas cartas e romances.
No vigor dos seus 20 anos tornou-se jornalista, acabou espancado, e colaborou com dezenas de publicações. Levou uma vida de boémio. Camilo detestava música mas gostava de cantoras. Era um pai amigo dos filhos, mas os chefes de família proibiram os seus livros no seio familiar. Teve um amor platónico com Maria Felicidade nascida numa família humilde, casada e mãe de quatro filhos, com quem desenvolveu uma partilha de poemas nos jornais.
Em Lisboa, Camilo frequentou o Martinho da Arcada e começou a escrever os primeiros romances em fascículos.
Uma outra mulher que entra na vida de Camilo é Isabel Cândida, uma freira bem mais velha que o escritor, mas com quem terá vivo um apaixonado romance que se tornou público. Em 1850 conhece Ana Plácido, o seu grande amor e companheira, num baile na Assembleia Portuense, estava noiva, tinha 19 anos. Camilo teria confidenciado que tinha encontrado a mulher fatal, na realidade foi ao contrário. A opinião pública não poupou os amantes. Pinheiro Alves era marido de Ana Plácido. Camilo foi parar novamente ao cárcere da Relação onde escreveu alguns romances e para jornais.
Ana Plácido, também escritora que quis ser reconhecida como tal, mas que Camilo fez por se apagar. O autor do “Amor de Perdição” não foi propriamente um bom homem e compreensível companheiro para as mulheres, no mínimo sobraram maus tratos psicológicos.
Camilo era um estudante que pouco estudava, um aluno medíocre em qualquer curso que frequentou “eu não tenho talento, tenho memória”. Era caçador, andou atrás de galinholas mas consta que não caçou nenhuma.
O património que o pai deixou foi delapidado pela família, mas tinha fama de rico e as mulheres colavam a ele. Camilo era um homem de tertúlias, boémio, viveu do seu talento de escritor. Suicidou-se a 1 de Junho de 1890 na casa de Seide onde vivia com Ana Plácido, por não ser capaz de aceitar uma cegueira progressiva que o impedia de continuar a escrever. Tudo isto e muito mais contou Manuela Espírito Santo a uma plateia interessada em entender um pouco mais do mais estudado romancista português.
Por: José Peixoto