Voz da Póvoa
 
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As Margens de Um Rio de Certa Maneira

As Margens de Um Rio de Certa Maneira

Cultura | 1939 | 15 Janeiro 2020

Os dias por cá dividem-se entre o Inverno e o Inferno. Somos sempre exagerados, não se trata de nenhum ditado popular, mas de um dizer das terras do longe, de onde só recebemos notícia de uma tragédia.

Os dias cinzentos de Dezembro recitaram o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen: “Bebido o luar, ébrios de horizontes, julgamos que viver era abraçar o rumor dos pinhais, o azul dos montes e todos os jardins verdes do mar”.

Os dias ou fizeram-se assim, oblíquos de água ou foram trazidos pelo vento das tempestades. Horas houveram em que as cidades, contra vontade, foram Veneza. Os rios, na verdade, só sabem descer, mesmo quando galgam as margens, cansadas da violência de o apertar. Depois, é como se toda a vida tivesse corrido por ali, como se toda a terra fosse leito seu, em Balasar, nos Arcos, o Este.

Os dias querem-se brinquedos, campos floridos de primaveras ou vidraças batidas de chuva enquanto dormimos. Talvez o tempo se adivinhe mesmo quando nos prega uma partida. Os avós do antigamente subiam a vereda ou aproximavam os olhos do mar até ao horizonte e sabiam do tempo futuro. Era como se lessem no céu ou na cor do mar as ciganas linhas das mãos.

Os dias desconhecem vontades ou ordens divinas. Acordam no desespero do fogo ou do dilúvio. Não sei o que o mar faz a tanta água. Vejo o rio deixar de ser serpente para ocupar a terra, transformar árvores em barcos e arrancar dos campos a pouca fartura. Depois, aos poucos, volta a ser o rio da nossa aldeia, onde todas as memórias habitam. O gado a matar a sede, a garotada a experimentar a pesca e o mergulho, as lavadeiras entre cantares e roupa suja.

Os dias vivem em todas as estações e conhecem do Inverno uma lenda grega que atravessou o tempo. Conta que Zeus, o deus dos deuses, e Deméter, a deusa da agricultura, geraram a bela e alegre Perséfone. Um dia, a jovem desceu à Terra para dar um passeio. Hades, o senhor dos mortos, viu-a e apaixonou-se. Com o seu poder abriu o chão e engoliu Perséfone, mas a mãe ainda ouviu o último e atormentado grito da filha.

Os dias e as noites de procura foram nove, sem sucesso para Deméter. Como uma mãe nunca desiste, consultou Hélio, o sol, que do seu lugar tudo vê, que lhe contou do rapto. Indignada, Deméter respondeu que não voltaria ao Olimpo sem a filha e como deusa da agricultura não cumpriu os seus deveres e obrigações. Deixou de alimentar a terra e veio a fome. Hermes, mensageiro de Zeus, prometeu fazer regressar Perséfone, se não tivesse saboreado o alimento dos mortos.

Os dias trouxeram a jovem por pouco tempo, porque tinha comido três sementes de romã. Hades levou-a de volta, mas Zeus ajustou uma saída. Todos os anos, Perséfone fica com a sua mãe durante nove meses, para que a terra possa celebrar a vida com a Primavera, o Verão e o Outono. Nos outros três meses, fica com Hades, seu marido. Como se fosse um tempo de tristeza e angústias, a terra cobre-se de gelo, neve ou demasiada chuva, e as sementes não crescem. É o Inverno do nosso desprazer.

 


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