
Ao cair da tarde, a floresta respirava como um animal antigo. As árvores rangiam ao de leve, trocando segredos que só o musgo entendia.
Marta avançava pelo carreiro estreito, seguindo o som da água, com o coração atento e os bolsos cheios de silêncio.
Diziam que ali o tempo se multiplicava. E, de facto, quando encontrou a clareira, o ar mudou. A luz filtrava-se em fios dourados, e no centro brotava uma fonte de pedra, coberta de folhas.
Marta ajoelhou-se e viu o reflexo não do seu rosto, mas de uma memória: a mão do avô a ensinar-lhe os nomes das árvores, a rir quando ela errava.
Uma corça surgiu entre as sombras, sem medo. Fitou-a como quem reconhece um regresso.
Marta sorriu. Bebeu da fonte e sentiu a pressa dissolver-se. Quando voltou ao carreiro, a noite já tinha chegado, mas a floresta parecia mais clara. Levava consigo algo simples e raro: a certeza de pertencer ali.
Isabel Rosas, escritora