Voz da Póvoa
 
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Ao cair da tarde

Ao cair da tarde

Cultura | 27 Fevereiro 2026

 

Ao cair da tarde, a floresta respirava como um animal antigo. As árvores rangiam ao de leve, trocando segredos que só o musgo entendia. 

Marta avançava pelo carreiro estreito, seguindo o som da água, com o coração atento e os bolsos cheios de silêncio.

Diziam que ali o tempo se multiplicava. E, de facto, quando encontrou a clareira, o ar mudou. A luz filtrava-se em fios dourados, e no centro brotava uma fonte de pedra, coberta de folhas. 

Marta ajoelhou-se e viu o reflexo não do seu rosto, mas de uma memória: a mão do avô a ensinar-lhe os nomes das árvores, a rir quando ela errava.

Uma corça surgiu entre as sombras, sem medo. Fitou-a como quem reconhece um regresso. 
Marta sorriu. Bebeu da fonte e sentiu a pressa dissolver-se. Quando voltou ao carreiro, a noite já tinha chegado, mas a floresta parecia mais clara. Levava consigo algo simples e raro: a certeza de pertencer ali.

Isabel Rosas, escritora

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