Voz da Póvoa
 
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Anunciata de Pássaros e Palavras ‘submersas’ em Romance

Anunciata de Pássaros e Palavras ‘submersas’ em Romance

Cultura | 13 Março 2026

 

No âmbito da 27ª edição do Correntes d’Escritas, a Galeria Ortopóvoa inaugurou, no dia 27 de Fevereiro, a exposição de pintura e escultura “Anunciata” de Afonso Pinhão Ferreira, com curadoria de Elisa Pinhão Ferreira. O fim de tarde com dedicatória às artes foi também celebrado com a apresentação do romance de António Pinhão “submerso” pela Prof.ª Dr.ª Isabel Ponce de Leão.

A exposição tem como ponto de partida um imaginativo trabalho sobre o compositor francês, Maurice Ravel, que integrou o 47.º Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, ao qual se juntaram novas criações: “tentei fazer uma pintura com o meu cunho, com as minhas cores e também figurativista, como é o meu apanágio quase todos os meus quadros são figurativistas. Incuti-lhes um bocadinho de surrealismo, os pássaros a tocar corneta, a musicalidade das aves e depois, este último quadro que fiz, que são as gaivotas da Póvoa com as cornetas em várias perspectivas, com aqueles brilhos. Eu imaginei as gaivotas com as cornetas a anunciar – chegamos à Póvoa, chegamos à Póvoa”.

 Há aqui uma linguagem entre a natureza e o instrumento. Aliás o homem quando chega ao instrumento já o ouviu num sítio qualquer: “A música, como dizia o Nietzsche, é um tremendo mistério, não se consegue perceber o que é a música, mas a música de facto é percebida por todos os humanos por todas as variações. A música sempre me cativou como a primeira arte e eu não tive a sorte quando era miúdo de ter tido formação musical. Desenvolvi a formação em várias valências e na música não, mas sempre gostei de música e quando estou a pintar tenho que estar a ouvir jazz ou música desse género que me dá ritmo, harmonia, que me dá uma série de coisas e essa é a razão pela qual eu pinto muitos quadros com instrumentos, com instrumentistas que nos alertam para a beleza que é poder ouvir e sentir a música. A gente ao observar, às vezes, ouve a música. Às vezes, vemos um instrumento muito bonito e imaginamos a música daquele instrumento”.

 Há uma exposição, a música nos quadros, uma curadoria, o lançamento de um livro. Vivemos um momento conturbado por guerras que a arte procura contradizer: “Quem dera que isso fosse verdade. Não se esqueça que grande parte do nazismo na grande guerra foi criado por gente muito culta. Nem sempre a cultura inibe a violência, infelizmente. Agora, eu defendo muitas vezes que quanto mais culta é uma pessoa, em princípio, menos se destrói porque dá mais valor às coisas, e eu quero acreditar nisso, o Senhor também, e por isso é que lutamos pela cultura”.

Sabemos que há aqui o Ravel, o conhecimento da música para podermos chegar à forma como se coloca um quadro. Para a curadora, Elisa Pinhão Ferreira, o facto de conhecer muito bem o artista coloca-a numa posição muito confortável: “É preciso distinguir onde é que as coisas devem ficar. Por exemplo, o quadro que está na capa do catálogo é a imagem da exposição, achei que deveria ficar ao topo das escadas, chegamos e presenciamos logo o tema da exposição”.

Depois, a música, como dar-lhe pauta e imaginada sonoridade: “No meu caso seria através de palavras, no caso do meu pai é através da bidimensionalidade pictórica, mas cada pessoa interpreta e sente as coisas de forma diferente. O facto de hoje ser todo um ambiente familiar orgulha-me muito, tenho o meu pai e o meu irmão no lugar de destaque, eu estou aqui um bocadinho mais atrás contente com a oportunidade que me deu e portanto, acho que é um dia radiante para nós, enquanto família, e estar incluído no evento Correntes d’Escritas é maravilhoso”.

 Pássaros cantantes são todos, mas um pássaro percussionista tem uma marca diferente, no caso, o pica-pau sim, “foram boas analogias, eu acho que as gaivotas são mais barraqueiras, têm aquele cornetinho mais enfático, os pica-paus são mais percussionistas, têm aquele ritmo sempre marcado, cada um a seu tempo, mas sempre no mesmo tempo. Acho que nesta exposição há uma tríade, temos a natureza, obviamente, a música que percorre tudo e temos o elemento humano enquanto maestro, enquanto ouvinte, enquanto espectador, enquanto contemplador da obra de arte, enquanto pintor e artista. Portanto, há aqui uma tríade e é assim que se fazem as coisas, há conceitos diferentes no meu entender, foi esta a minha interpretação, a minha leitura, cada um depois fará a sua com certeza”.

António Pinhão guardou na memória um livro por escrever até que um dia o libertou no papel e agora reserva-se ao comentário, à opinião, ao julgamento do leitor, de momento isso não interfere na sua alegria: “A imaginação leva-nos para outros sítios. E cada pessoa vai encontrar ali o que quiser encontrar ou o que a imaginação permitir. Trata-se de um thriller, embora não seja bem um policial porque não há personagens polícias. Mas há mistério, há crime, há amor, há tudo um pouco. Vamos ver como é que corre. Não vamos pôr a carroça à frente dos bois, mas é claro que está na minha cabeça continuar a escrever”.

E como é que lidou com os personagens, eles apareciam à mesa, à noite, de manhã? “Quando eu leio livros, gosto muito que os personagens se tornem quase meus conhecidos. Gosto quando chego ao fim do livro e sinto saudades de um determinado personagem. Portanto, esforcei-me bastante para construir os personagens, dar-lhes vida, terem profundidade. Porque hoje em dia, leio muitos livros em que os personagens não têm coerência nenhuma”.

O facto de ser neste ambiente familiar e a conjugação também da exposição do pai, o lançamento do livro, que sentimento lhe traz? “Para começar é logo um sentimento de segurança porque estamos a jogar em casa, é tudo mais fácil, eu passo aqui a minha vida, já conheço os cantos da casa e, portanto, esse sentimento de segurança é acrescido. Depois, o facto de fazer isto com o meu pai, é engraçado, mas eu já trabalho com ele, é uma série de afazeres familiares sempre aqui e, portanto, fazia todo o sentido, já que ia haver uma exposição dele, fazia todo o sentido aproveitar a boleia e fazer o lançamento do livro ao mesmo tempo que a exposição”.

Por: José Peixoto

Fotos: Rui Sousa

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