Voz da Póvoa
 
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Almas Gémeas há Meio Século no Coro Capela Marta

Almas Gémeas há Meio Século no Coro Capela Marta

Cultura | 16 Abril 2021

O Dia do Pai, para quem o exemplifica é todos os dias, mas o calendário religioso ofereceu-lhe um festejo por ano a 19 de Março, talvez para lembrar os mais distraídos dessa função. Recuar 70 anos ao Dia do Pai é encontrar um grupo de jovens adolescentes dirigidos por António José Gomes Júnior (Marta), o maestro que emprestaria o nome ao Coro Capela Marta. S. José apadrinhou as vozes que nunca mais calaram, mesmo com novos intervenientes.
 
A história conta ainda uma outra data. A 9 de Maio de 1986, por escritura pública, com publicação no Diário da República, III Série, nº. 137, de 18 de Junho de 1986, foi criada e legalizada a Associação Cultural Capela Marta, com sede na cidade da Póvoa de Varzim.
Na longa viagem pelos palcos, o seu extenso repertório é sacro e profano, mas a obra do seu fundador está sempre presente. A grandeza que atingiu em cada concerto mereceu a atribuição pela Câmara Municipal da Medalha de Reconhecimento Poveiro – Grau Ouro. A honraria deveria ter acontecido no Dia da Cidade, a 16 de Junho de 2020, mas devido à pandemia não é certo que a cerimónia aconteça em 2021.

Da direcção da Associação Cultural Capela Marta fazem parte três irmãos, os gémeos João Manuel Barbosa de Magalhães (Presidente), Joaquim Manuel Barbosa de Magalhães (Tesoureiro) e Abel Sameiro Barbosa de Magalhães (Presidente de Mesa da Assembleia Geral).

Em 1956, o parto foi em casa como se usava naquele tempo. O João Nasceu primeiro, mas o Joaquim é mais velho. A diferença entre nascimentos é de 15 minutos. Foram ambos profissionais de seguros. Trabalharam na Tranquilidade, nos mesmos serviços, até se aposentarem. O Joaquim Magalhães começou no contencioso e transitou para a área financeira, o João Magalhães trabalhou sempre na área financeira. A entrada para o coro Capela Marta aconteceu no mesmo dia, há 51 anos.

“Nessa altura, o Coro estava a passar por uma fase má, porque deu-se a saída de vários elementos e o maestro Antoninho Marta pediu aos que ficaram para convidarem novos elementos. O Pedro Morim convidou o nosso irmão Abel Magalhães que participou num ensaio e convenceu-nos a entrar também. Desafiados pelo Pedro e pelo meu irmão, semanas depois integrávamos o coro Capela Marta. Na altura, andávamos nos escuteiros S. José e acabámos por sair”, recorda João Magalhães.

Hoje, para além dos três irmãos, Joaquim Magalhães destaca a presença ou a passagem de outros familiares: “O meu filho Luís Magalhães que é coralista há 19 anos, o José Rui, filhos do meu irmão João, também cantou até rumar à Áustria e o nosso pai também integrou o Coro”.
 
E João Magalhães recorda que a entrada do pai se deu em circunstâncias únicas: “Antigamente, na Capela Marta não era permitida a entrada de elementos casados. O meu pai, que sabia música e cantava muito bem, foi o primeiro a entrar, com autorização do senhor Antoninho. É um mal de família, toda ela canta bem. Somos seis irmãos e todos têm afinação na voz. A minha mãe Gumercinda, aos 80 anos, ia cantar fados ao Lar da Santa Casa da Misericórdia, para animar os utentes”.

Recuar duas décadas na memória de Joaquim Magalhães é encontrar um concerto inesquecível: “Fomos convidados para cantar nas cerimónias dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Santarém. Penso que foi a primeira vez que recebemos uma salva de palmas tão estrondosa e prolongada. Recordo que o nosso querido amigo Bino Pescadinha ficou tão emocionado que parecia uma criança a chorar. Foi das actuações que mais nos marcaram neste percurso todo de Capela Marta. Ultimamente, desde que o Tiago Pereira passou a dirigir o coro, todos os concertos são marcantes, porque há um trabalho apurado e uma concentração focada no que fazemos. O resultado só pode ser uma felicidade para todo o Coro”.

O Instrumento da Voz Precisa Afinar o Corpo Para Cantar

Capela Marta passou por uma fase em que havia a convicção que o coro estava moribundo, recorda o Tesoureiro: “Faço parte dos corpos directivos há quase 30 anos. Tivemos um maestro 16 anos a dirigir, mas por várias vezes nos abordou que queria parar. Fomos conseguindo mantê-lo, mas na verdade a sua vontade esmoreceu e já não havia progressos. Um dia, deixou-nos em definitivo e estivemos seis meses à procura de maestro. Batemos a muitas portas, mas quem contactávamos estava sem tempo disponível. Insistimos e surgiu o jovem Tiago Pereira. Nunca desistimos, o amor à música e ao coro Capela Marta foi mais forte”
Com a direcção do coro pela mão de Tiago Pereira, foram surpreendidos com exercícios físicos antes de ensaiar: “É das coisas que primeiro estranha-se e depois entranha-se. O maestro só consegue fazer isto connosco, pôr homens de 80 anos deitados no chão do ginásio a cantar, porque todos os elementos têm um amor incondicional pela Capela Marta. Se o Tiago nos dizia que aquilo era bom para nós, apesar de estranhar, tivemos que entranhar. Na primeira vez que nos convidou a fazer aqueles exercícios, alguns não aderiram logo, mas depois perceberam que o mestre tinha razão e havia motivo para fazer aquilo, hoje todos fazem os exercícios, convictos da sua importância para um coralista”, assume o Presidente.
 
E acrescenta: “Há também um factor importante, que é os laços de amizade e a socialização que tentamos promover, entre nós e com quem está connosco. Penso que é muito provavelmente, o grande segredo da longevidade do Capela Marta. Vamos estar praticamente dois anos parados, mas acredito que rapidamente voltaremos onde estávamos em grandeza e qualidade, porque a vontade é enorme”.

João Magalhães explica como sentiram o confinamento pandémico, este calar de vozes, no ano em que é atribuída pelo município, a Medalha de Reconhecimento Poveiro – Grau Ouro: “No ano passado, fizemos dois encontros em Laúndos, ao ar livre, para confraternizar um pouco e sensibilizar o grupo para o fenómeno da Covid-19. Quisemos envolver toda a gente na decisão de não voltar a cantar enquanto não houver condições. Infelizmente, tivemos recentemente 4 casos no grupo. Recordo que no primeiro confinamento fomos os primeiros a fechar portas. Tínhamos o festival de Habaneras em Vigo e a uma semana do evento comunicámos que não iriamos estar presentes, face ao que se estava a passar aqui, mas também na Galiza. Perante a decisão que tomámos, a organização acabou também por cancelar o evento. Para nós, foi uma decisão muito difícil porque temos esta necessidade de cantar. Saio de casa com a família ou para os ensaios e concertos da Capela Marta. São 51 anos nisto. O coro nunca parou e agora esta obrigação, este afastamento, custa muito. Para minorar os estragos emocionais criámos um grupo no whatsapp, onde conversámos entre nós. Penso que dentro em breve, com o desconfinamento podemos voltar a encontrar-nos, no entanto só deveremos regressar com o Coro em 2022. As comemorações dos 70 anos vão acontecer Online. Como não é possível fazer nada em público, vamos aproveitar as redes sociais e nos jornais, para o fazer. A direcção, sempre que um elemento do coro faz anos, envia uma mensagem a todos os outros com o número do telemóvel do aniversariante para reforçar os laços de amizade”.

A união é também a força que mantém o decano dos Coros poveiros, reconhece Joaquim Magalhães: “Toda a gente trabalha em prol do grupo, até o Tomás Pontes com 84 anos faz o que pode. Naturalmente, há pessoas mais disponíveis porque vivem perto, mas quando organizamos o nosso Encontro de Coros, há dias em que todos os elementos colaboram. Aquilo que nos une é muito forte e tudo se consegue fazer. Temos recebido muitos elogios pelo nosso trabalho e organização. Estar parado é uma frustração enorme. Depois, perceber que é a segunda vez que não vamos poder celebrar o nosso aniversário com um concerto ou integrar as celebrações da Páscoa, é sem dúvida absolutamente frustrante”.

Também João Magalhães reconhece a decepção de não poderem celebrar o aniversário do coro Capela Marta: “Vamos ver se aos 75 anos, podemos surpreender com alguma novidade. Sabemos que não existem muitas associações desta natureza que se possam orgulhar de Festejar 70 anos, é já algo surpreendente. Somos o coro mais antigo da Póvoa e mesmo ao nível do país não há assim tantos. É um marco histórico e custa muito não poder partilhar esta nossa alegria. Nem sequer uma missa se pode mandar celebrar em honra de antigos elementos. Custa aceitar, mas não nos vai abater”.

É Preciso um Ano Mais Para Voltar a Encantar à Capela

Para o Presidente, o regresso só deverá acontecer em definitivo em 2022: “Não vai ser fácil e vai dar muito trabalho ao nosso maestro, porque não somos jovens. Acredito que com a sua sabedoria e conhecimento juntamente ao nosso empenho, regressaremos rapidamente ao nosso nível. O trabalho que foi feito pelo Tiago Pereira fez regressar alguns elementos ao coro Capela Marta. Temos o Encontro de Música Coral em 2022, e os concertos adiados regressarão à agenda. Ainda recentemente, recebemos de Santarém a confirmação que iremos lá estar em 2022, nas celebrações do 25 de Abril e iremos também cantar ao auditório Mar de Vigo. Ou seja, aquilo que estava previsto fazer no plano de actividades em 2020 transitou para 2021, embora volte a ficar novamente tudo adiado. Se houver condições em Setembro, pode ser que consigamos organizar a Música no Adro, um evento sem a Capela Marta, porque nessa altura ainda não é possível fazer boa figura”.

As saudades do futuro fazem Joaquim Magalhães regressar o passado: “Quando trabalhávamos no Porto íamos uma semana no carro de cada um. Como moramos perto um do outro, fazemos o mesmo quando vimos para os ensaios. Para os concertos do coro Capela Marta só viajam os homens, mas agora organizamos eventos, como o Amor e Música, no dia dos namorados. Nesta iniciativa, as mulheres, os coralistas e todos os associados são convidados para um jantar com animação musical. As mulheres são as nossas maiores críticas, no bom sentido, do nosso trabalho, porque partilham o gosto pelo coro Capela Marta”.

A relação com a autarquia tem sido de cooperação, mas também de reconhecimento, esclarece João Magalhães: “O Presidente da Assembleia Geral, Abel Magalhães, na apresentação de um concerto disse que – a Capela Marta merece a Póvoa de Varzim, mas a Póvoa de Varzim também merece a Capela Marta. Sinto que temos o apoio total da nossa Câmara Municipal, porque apresentamos trabalho. Este é um ponto de honra da direcção. Sempre que nos solicitam a nossa presença, fazemos questão. Trabalhamos pela música coral, mas também pela Póvoa de Varzim. Quando vamos fora de portas cantar, levamos a bandeira da nossa cidade. Quando nos despedimos em palco de uma terra é com as ‘Saudades do Mar’ na voz”.
 
Homenagear o fundador, é para Joaquim Magalhães, manter vivo o Coro que ajudou a criar: “Quem morre parte fisicamente, mas a memória fica. Neste caso, permanecerá enquanto houver Capela Marta. O senhor Antoninho Marta foi sempre uma espécie de pai para a música. Ele foi nosso professor de Cântico Oral na escola, antes mesmo de sabermos da existência do Coro. Depois, foi com o coro Capela Marta que nascemos para a música. Temos esta certeza, quanto mais tempo a Capela cantar mais o Antoninho Marta vive”.
 
A vida é feita de sonhos e João Magalhães revela um desejo: “Gostaria muito de criar um coro de miúdos, para termos uma base que garanta o futuro. Penso que será realizável logo que as condições se ofereçam. Depois, é voltarmos rapidamente a cantar como estávamos quando tudo se fechou. Claro, com o Tiago Pereira a dirigir, porque não me vejo com outra pessoa. Para além de ser altamente competente é também uma excelente pessoa. Estes 70 anos da Capela Marta não são dos actuais elementos do coro, mas do senhor Antoninho Marta e de todos aqueles que desde o dia em que ele fundou o coro passaram pela Capela Marta. São 70 anos de história, onde cabe toda a gente que contribuiu para o sucesso do Capela Marta, que não é de hoje mas de sempre. Os sócios ou antigos elementos do coro Capela Marta que queiram visitar a Sede, serão sempre bem-vindos”. 

Por: José Peixoto

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