Voz da Póvoa
 
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Admiráveis Dias Lentos

Admiráveis Dias Lentos

Cultura | 1953 | 27 Maio 2020

O mês de Maio despede-se no seu vigor e exuberância e, tal como escreveu Raul Brandão no início do século passado: “Era decerto condão das flores - mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem as árvores de roxo, de púrpura, de verde.” Os dias preservam-se, assim, dilatados e lentos, devolvendo ao nosso olhar a contemplação do mar, aprofundando essa certeza de redescoberta do cheiro das flores e do sabor da terra. E que sentidos podemos ainda despertar?

A extensão de solo fértil e a diversidade piscícola dos mares açorianos fazem-se sentir no interior do Mercado da Graça, em Ponta Delgada. As suas portas abrem bem cedo, por volta das sete horas da manhã, repercutindo o mesmo horário até quinta-feira, encerrando à semana às seis da tarde. À sexta e sábado este ponto de comércio destina-se às manhãs, pois fecha às duas da tarde, reservando o dia de Domingo para descanso.

 Situado na freguesia de São Pedro, o Mercado da Graça é um imóvel que resiste desde meados do século XIX. Aqui juntam-se os seus frequentadores habituais, os comerciantes, fornecedores e vendedores de produtos locais. Habitualmente costumam ser simpáticos, demasiado até, aparentando a normal fadiga das acritudes de um quotidiano repetitivo. Certamente são agora mais os que despertam com apetites e vontade em adquirir artigos frescos, desejosos por degustar refeições prazenteiras ou que querem ter por perto alimentos saudáveis ou prontos para uma próxima degustação.
 
Aproveitemos, assim, para dar tempo ao tempo. Quanto tempo tem o tempo? Pergunta a lenga-lenga, dando conta que o vagar agora disponível seria bom para exercitarmos os sentidos, ainda que estejamos reduzidos à visão e audição. Desta feita, guardemos o olfacto para quando chegarmos a casa. Anteriormente, a cada entrada e cada passo, tudo servia para inalar os aromas e odores dos proventos da terra, obrigando a cada nova paragem para se descobrir as riquezas naturais que se encontram espalhadas pela ilha verde.
 
Uma visita ao Mercado da Graça servirá, assim, para enaltecer a aquisição de produtos que o solo açoriano nos concede: inhame, beterraba, pimenta da terra, batata doce, batata abóbora, anona, araçá, goiaba, tal como o famoso ananás (que delicioso, o Ananas Comosus!) e, obviamente, com espaço de venda assegurado e devoto aos queijos procedentes de todo o arquipélago que, como devem presumir, são autênticos fomentadores de contentamento. Por fim, convenientemente instalada lá bem ao fundo do mercado, há também a peixaria, que é razão de sobra para aí deslindar a origem dos peixes do mar cavo do Atlântico. Encaramos, assim, muito facilmente com o boca negra, o alfonsim, o imperador (a família dos peixes vermelhos!!!), ainda a abrótea, o peixão, a veja, o bodião, o congro, o peixe porco, o chicharro (no continente conhecido pelo jaquinzinho), para além dos diferentes tipos de atum (albacora, patudo, bonito, etc.) que são autênticas atracções da cozinha local.

Texto: Fernando Nunes / Fotografia: Carlos Olyveira

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