Voz da Póvoa
 
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A Sorte Que a Vida Tem em Esculpir a Morte

A Sorte Que a Vida Tem em Esculpir a Morte

Cultura | 1933 | 20 Novembro 2019

O verbo acendeu irrequieto o primeiro sujeito. Depois o mundo pulverizou as intenções e aumentou as diferenças. Para os pobres ficou a honra como brasão, mas a vida, quando respira, inspira uma certeza, caminhamos todos no sentido da eternidade. Enquanto o coração bater nunca seremos procurados no vale dos caídos.

A morte chega-nos depois. Uma estrela, uma supernova, encontra o nosso olhar, na noite, cheia de brilho e já defunta. É espantosa a possibilidade de conviver com um já passado. É por isso que nunca saberemos o que está por trás de uma lágrima, se tristeza, angústia ou alegria. As flores, antes eram amor.

Talvez nos pareça uma coisa mórbida como o barco das cruzes, ali frente ao mar das Caxinas, mas é pela vida e agarrados à esperança que construímos ou criamos para o mundo. Imaginar os nossos é retornar ao olhar dos dias em que nos sentimos em carne, em abraço, em palavras apaziguadoras, sábias.

Trocamos palavras com o outro que encontramos no mesmo lugar que visitamos, para acender uma vela, deixar umas flores. Há casas para os mortos roubadas ao sonho por Soares dos Reis e outros tantos artistas. Fiéis são os dias que quisermos e a memória é muito mais eterna do que imaginamos. Quem não dá por isso são as crianças que correm e riem à farta entre os jazigos. Não vale rezar por quem está calado. A penitência é um lugar dos vivos.

A pedra, o mármore, talvez pelo frio que sentimos ou pela matéria que se eterniza no lugar. Quem pelas mãos trabalha a dor e a perda também ergue uma vida ou vidas felizes. Depois o anjo, o santo, o livro a dizer saudades, a justificar o fim, porque esquecemos que enquanto lembrados não morremos.

Quando entramos nos lugares de silêncio deveríamos todos recitar o poema de Curia Martinez: “Vulgar é a lua ou pessoa mascarada. Gosto de gatos. Não gosto de arranhões. A nossa casa é original por dentro da felicidade. Crio e creio na beleza. N’o velho e o mar de Hemingway ou as flores do mal de Baudelaire”.

E se fosse preciso para reforçar a vida dos que apenas partiram, lembraria o grande Luís de Camões: “Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida, descontente / Repousa lá no Céu eternamente / E viva eu cá na terra sempre triste”.

Recolho-me na arte da memória. Podemos sempre desconfiar da luminosidade das palavras, de uma escultura que nasceu para evocar a morte, mas não confundo um bar ali ao lado do fio do mundo.

Por José Peixoto

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