Voz da Póvoa
 
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A Rua Vai Voltar a Ser a Casa da Liberdade

A Rua Vai Voltar a Ser a Casa da Liberdade

Cultura | 1949 | 25 Março 2020

Um dia, vindos da quimera do tempo, saímos da natureza das coisas e percebemos o sentir, a fascinação, a vida. Contam-nos que, como os outros animais, vivíamos em constante sobressalto. A lei do mais forte sempre ditou as suas. O ser humano fez-se gente e do ar livre, onde se expunha a todos os perigos e liberdades, primeiro encontrou nas árvores o lugar do sono inseguro e nas cavernas o primeiro aconchego, a primeira casa.

Depois ergueu castelos, conquistou, seduziu, emocionou-se, inventou. Creio que na roda da vida, no fogo dos outros, a maior das descobertas foi o amor. É por isso que ouvindo Elis Regina cantar ‘Fascinação’ me apetece dizer que, agora, sobretudo agora, a canção também é minha.   

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ

O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria e entontece
És fascinação, amor

Teu sorriso prende, inebria e entontece. És fascinação, amor razão que nos enobrece. Às vezes olhamos os dias com a expressão dos velhos, um dia de cada vez nos trará as rugas e uma longa história para contar. A casa é o lugar onde depois da memória nos guardamos inteiros. Regressar é partir.
Este desassossego, esta inquietação, carregada de impaciência é também uma demonstração de obediência. Pela primeira vez, a incerteza é uma ordem, mas só quero pensar que a casa é o melhor lugar do mundo. Queremos acreditar que a vida é lá fora, onde as ruas nos trazem amigos e todas as outras pessoas, mas sabemos que é conveniente não desesperar pela espera.

A única forma de me abstrair do mal que nos trouxeram à rua é recordá-la um tempo antes, aqui e nas outras cidades escritas em castelhano, francês, inglês, italiano, holandês, eslavo e outras mais estranhas. É na rua que nos tornamos, caminheiros, peregrinos, viajantes, românticos, divertidos.
Talvez tenha chegado o tempo de acreditar que nos sonhos mais lindos sonhei, que para ganhar a vida é preciso merecê-la.

 


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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