Voz da Póvoa
 
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A Procissão de um Senhor Vivo

A Procissão de um Senhor Vivo

Cultura | 1950 | 15 Abril 2020

Nos cemitérios não se vivem dias de solidão, foram sempre lugares com esse nome. O tempo mandou encerrar todo aquele silêncio e à porta as coroas de flores valem o mesmo para todos os mortos. Não vale a pena acusar quem procura, no arranjo floral dos que ainda ama, a sua própria tranquilidade.

Há uma velha tradição na noite de sexta-feira Santa a percorrer as ruas da cidade com o esquife do Senhor morto, como se precisássemos repetir até à exaustão que morreu por nós, quando também por nós ressuscitou. No cortejo fúnebre segue a mãe Senhora das Dores, a carregar o luto de todas as nossas perdas.

É este simbolismo que nos deveria percorrer a calma. Os lugares de ontem continuam lá e mais do que assistir à passagem de uma procissão, fazer por renascer num ser humano melhor, deveria ser a transformação que a ressurreição nos explica. Há decisões que nos pertencem, outras impostas, todas com o lado do acerto ou do erro.
A Semana é Santa para quem acredita, tem fé e segue a partitura bíblica. Contabilizar prejuízos numa coisa que agora se chama “Turismo Religioso” é que me parece pouco católico, sabendo que todos temos que comer. A memória chega a ser uma fatalidade quando nos distanciamos do felizes que somos.

É por isso que talvez tenha chegado o tempo de perguntar para quando a procissão de um Senho vivo. O mesmo seria dizer um tempo novo, uma condição de vida diferente que nos encontrasse noutra pessoa. Vivemos o tempo da repetição e até este deserto de ruas se repete até quando. Há uma explosão de ansiedade a querer saber de um Cristo depois da Páscoa, o céu que agora está mais limpo, mais puro e sem projecto humano. A pureza que nos exigem para lá chegar.

Dignidade é a única cruz que queremos carregar e mesmo assim hesitamos. Há no entanto, um compromisso herdado e edificado em nós, nesta relação que temos com o além, com o divino, como nos traduz o escritor Valter Hugo Mãe num pequeno enxerto retirado da sua “Cidadania Impura” algures no JN: “Estou convencido de que todas as religiões preveem o seu Deus para que as pessoas possam ser educadas a acreditar umas nas outras. Com maior ou menor deslumbre pela burocracia ou ritualidade, todas as religiões assentam na alteridade entre os pares a verdadeira forma de corresponder ao Criador. Pois, com ou sem fé, essa é a base de toda a humanidade, a ideia límpida de que estamos aqui uns pelos outros. Apenas uns pelos outros passaremos para uma nova era de muito maior esplendor”.

É por isso que as coisas do mundo podiam ser de pedra, de ar, de terra ou luar. As coisas do mundo são para questionar e aclarar.


Leia a notícia na íntegra na edição impressa

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