
Escrevi algumas palavras porque o momento é solene e não quero correr o risco de me perder, esquecer, atrapalhar e, mesmo assim, nada é garantido.
É uma honra enorme estar nesta mesa e neste momento, em representação dessa entidade petalosa formada pelos Autores das Correntes, um conjunto extraordinário de pessoas, uma tribo que tem mudado a minha vida em tantos sentidos que ainda não fui capaz de os descobrir a todos.
Estou aqui, e já pensei que talvez seja a pessoa errada para aqui estar, mas tenho sido tantas vezes a pessoa errada em tantos lugares e tempos, ofícios, estradas, comboio, sonhos, praias, estrofes, varandas… A verdade é que estou aqui, tenho uns minutos só meus, a fazer de conta que são também vossos, e vou usá-los para vos representar, lembrando a pessoa que aqui vos trouxe.
Temos perdido muitas pessoas queridas desta tribo das Correntes, desta família a que fazemos parte com a mesma cumplicidade com que ela faz parte de nós. E este ano perdemos o Francisco Guedes, o pai das Correntes, um amigo querido, um sábio ancião da nossa tribo que, se aqui estivesse, já estava a olhar para mim com uma sobrancelha mais levantada que a outra, à conta das tolices com que o estou a adjetivar… Talvez deixasse fugir baixinho um breve arremedo de gargalhada, vindo da garganta para os lábios em meio sorriso meio tapado pelo bigode, tudo isto a passar-se num canto da sala onde ninguém o visse ou pudesse saber onde se escondia. Penso que talvez lá esteja de facto. Gosto de pensar que sim.
O Chico trazia uma calma incomum aos gestos que fazia, como se todas as coisas que precisassem de ser feitas a correr, não precisassem de ser feitas de todos. Era doce, muito doce e, ao mesmo tempo, senhor de um inabalável mau-feitio que o impedia de fazer qualquer espécie de frete ou de compreender a função do politicamente correto.
Num mundo onde tanta gente que procura deixar rasto de empreendedorismo oportunista, problemas para alguém depois resolver, de atropelo e de ódio disfarçados de ‘eu é que sei como é que havíamos de endireitar isto tudo’, o Chico foi aquela pessoa que escolheu deixar uma combinação de tempo e lugar onde habitasse a oportunidade para ideias, diálogo, descoberta, aproximação, criatividade, crescimento, inspiração… sempre no plural, como tudo deve ser no Correntes d’Escritas.
Penso que este caminho, este rasto que nos fica em legado, talvez não tenha sido uma escolha intencional. Que foi também empurrado e apoiado (algumas das pessoas aqui presentes: o amigo Lopes de Castro, o na altura vereador da cultura Luís Diamantino, os na altura presidentes da câmara José Macedo Vieira e Aires Pereira… a companheira Manuela Ribeiro, hão de concordar comigo), que soube recrutar desde o princípio as pessoas certas que alargaram o contingente de colaboracionistas bons (Onésimo Teotónio Almeida, Ana Paula Tavares, Manuel Alberto Valente, Carmen Yánez, Ivo Machado, Lídia Jorge, hão de concordar comigo), que foi construindo o caminho com aquela naturalidade que lhe era tão natural, sem uma ideia clara daquilo em que as Correntes se viriam a transformar, mas com uma ideia clara daquilo que queria que elas representassem.
Pergunto-me se o Chico teve plena consciência da enormidade daquilo a que deu origem. Parece-me que é fácil, às vezes, para aqueles que estão inteiramente mergulhados nas mil e muitas tarefas de uma empreitada, se esquecerem da verdadeira essência e importância daquilo a que dedicam a sua inteligência e energia.
Deixem-me tentar explicar de outra maneira. Ora escutem:
Nós todos que estamos aqui pertencemos a uma espécie de tribo, uma espécie de seita que acredita que a Literatura é uma coisa boa, uma coisa prestável. E vivo com a candura natural de quem ama um objeto e acredita que ele é absoluto. Mas vivo em contradição. Uns dias vivo na esperança de que no futuro a Literatura vai ser como pão para a fome, outros dias em que me convenço de que estou cercada e que vamos desaparecer.
Acredito que enquanto cada um de nós guardar o segredo da existência, enquanto as crianças nascerem do amor, enquanto tivermos o desejo de falar com o total, então a Literatura será essencial, será contínua. Mesmo que no futuro a Literatura se reduza a pichagens nas paredes, ela tem esse papel de totalidade, de absoluto, de ironia, de revolta, de sonho, de esperança, de memória, de gargalhada, de sofrimento, de assombro… porque quando a Literatura deixar de ser isso, nós já não seremos nós.
Estas palavras não são minhas. Foram ditas por Lídia Jorge numa mesa das Correntes em 2004, a propósito de um daqueles temas esdrúxulos que o Chico criou a moda de entregar aos autores convidados. Estas palavras fazem parte de mim desde que as ouvi pela primeira vez. Fazem-me companhia e dão-me esperança. Preenchem os vazios que as perdas e as dúvidas me vão abrindo na alma. Dão-me um propósito de vida e uma razão para continuar a escrever.
E isto foi um excerto de uma comunicação de uma mesa de um ano das Correntes… Vou fazer uma matemática meia oblíqua – que é a única espécie de matemática que sei fazer – e multiplicar uma média de cinco autores por mesa, por 247 mesas em 25 anos, por 450 ouvintes, que é a lotação do Garrett. O produto disto tudo vem a dar quinhentos e cinquenta e cinco mil, setecentos e cinquenta momentos de escuta encantada; quinhentas e cinquenta e cinco mil, setecentas e cinquenta oportunidades de inspiração e de crescimento; quinhentas e cinquenta e cinco mil, setecentas e cinquenta razões para regressar.
As Correntes são isto e muito mais e foi este muito mais que o Chico originou, e ainda ficam de fora os fatores incontáveis como todas as pessoas que se sentam nos degraus ou se encostam às paredes do teatro, as que estão a ouvir em casa em direto ou meses depois na rádio, as que ouvem uma e outra vez, e outra vez ainda, as mesmas mesas ou as mesmas comunicações para pensar e sentir, para lembrar, para não esquecer.
E o Correntes d’ Escritas não foi o único festival dedicado à Literatura cuja semente foi colocada pelo Chico, de maneira que a minha matemática, além de oblíqua, vai muito pouca para tudo o que fez e ensinou a fazer.
Em 25 anos de Correntes e de outras sementes, o Chico mudou a forma como neste país nos relacionamos com a Literatura. Existe seguramente um mundo antes do Chico e um outro, diferente e muito melhor, depois dele, e penso que talvez não haja muitas pessoas de quem possamos dizer o mesmo. Não de verdade.
Penso que talvez eu seja a pessoa errada para estar aqui, que alguns de vocês, amigos de vida inteira, teriam mais propriedade para fazer esta homenagem. Penso que talvez seja difícil encontrar uma forma de homenagear o Francisco Guedes com verdadeira justiça pelas primaveras livres que nos entregou, por tudo o que sonhou, concretizou e que é, agora, nosso para continuarmos. Penso que talvez não haja uma forma justa e inteira de lhe agradecer, a não ser esta de estarmos simplesmente aqui, como se ele estivesse também, a darmos corpo e continuidade a tudo o que de intangível ele semeou e nós colhemos, para nos alimentarmos e semearmos de novo.
Só não sei o que fazer com as saudades, mas os abraços talvez ajudem.
Raquel Patriarca, escritora