
O teatro explica-se pela forma como se contextualiza entre a realidade e a desumanidade que nunca deveria existir numa única vida, para que não fossemos nunca actores num cenário de guerra.
Valter Hugo Mãe escreveu “Partitura da Guerra”, Raúl da Costa musicou e Eduardo Faria encenou e interpretou, juntamente com as actrizes Joana Luna e Joana Soares. Foram três dias, 5, 6 e 7 de Junho, um regresso depois da estreia a 7 e 8 de Novembro de 2025, pela Companhia Certa.
Uma peça de teatro nunca se repete, mesmo quando ao piano se ouve Tchaikovsky, Rachmaninoff, Dmitri Shostakovich entre outros compositores, para sublinhar “o medo e a brutalidade da guerra, mas também o amor e a humanidade entre as personagens”. Da crueza da guerra levada ao palco o público viveu uma experiência de grande intensidade emocional.
Quando se dá sentido e corpo em cima do palco “o fecho de um ciclo é o princípio de um mundo de possibilidades”.
"Partitura da Guerra" foi um preguiçoso abraço emocional, trazido pelas personagens e pela interpretação de um texto emocionalmente forte, pela música que interpreta o mundo que nos oferece um imaginário de palavras onde a poesia sobrevive a toda a desumanidade. Uma ‘Partitura da Guerra’ ou de como a imensidão do amor pode atravessar a devassidão da guerra.
É esta a força do teatro que nunca foi, não é, nunca será artificial, a sua inteligência será até ao fim, humana. É por isso que no seu percurso de vida teve, tem, terá obstáculos, resistências, impedimentos, proibições. Tudo, apenas e só, porque a liberdade, a lealdade, a felicidade, a integridade, a dignidade, a fraternidade e outras rimas de palavras que prenunciadas não valem nada – dependerão sempre da educação, da inclusão, da exclusão, da opressão, da hipocrisia cúmplice, mas acima de tudo da nossa distração.
Para sobreviver à desumanização, o combate é estar atento, é não só ir ver, é também ouvir, perceber e sair de uma “Partitura da Guerra” mais capaz de escolher. Porque, tal como as ervas, haverá sempre pessoas daninhas.
Por: José Peixoto
Fotos: Nelson d'Aires