
Ao sol das merendas o poeta sabe que o pão não foi o diabo que o amassou, mas o suor das colheitas de uma seara. O poema não sugere, diz do nosso entendimento. O poeta humaniza-se tão completamente que o uso da palavra é a sua embriaguez.
António Pedro Ribeiro nasceu em maio de 1968, quando a rua era um lugar de igualdade, de reivindicação. Depois cresceu a absorver o mundo, a tentar perceber o porquê das desumanidades. Licenciou-se em Sociologia, exerceu, deu aulas e entre outras crenças foi jornalista. Além de ter dirigido revistas e jornais de carimbo revolucionário, mas “tinham muito sentido de humor. Jornais que eram feitos na Faculdade de Letras, na tipografia, que eram ‘O Clandestino’ e ‘A Rebelião’. Chegámos a distribuir à porta e na Estação de São Bento, à população. Era uma forma de chegar às pessoas. No fundo, é aquela função que hoje poderia ter a Internet, o Facebook, mas afinal é só para coçar o umbigo”.
O poeta sente que hoje em dia há uma certa anestesia cerebral que impede de pensar, ver, observar, ter sentido crítico, protestar: “Acho que o mundo está numa situação apocalítica, caótica que pode rebentar numa terceira guerra mundial ou pelas alterações climáticas. O degelo, a subida dos mares que podem entrar pela terra dentro, os grandes incêndios que têm acontecido nos últimos anos. Vão acontecer mais e não se está a fazer quase nada para os evitar. Tenho a esperança que o povo se revolte, penso que já acontece em muitos lados, apesar da gestão cega dos poderes”.
E com a sua presença deu o exemplo: “Estive no Porto na Greve Geral do dia 11 de Dezembro, onde vi muitos jovens. Há alguns anos, nas manifestações do 25 de Abril e do 1º de Maio só se viam pessoas de 50, 60 e 70 anos e poucos jovens. Agora, as coisas mudaram, nestas manifestações e na Greve Geral havia muitos jovens porque não têm habitação, trabalho digno, só têm trabalhos precários, falta-lhes quase tudo. Temos muitas pessoas com curso superior a trabalhar em cafés, na restauração. Há muita pobreza, os sem-abrigo crescem a olhos vistos no Porto, em Lisboa, em Braga e outras cidades. Há muita revolta nas pessoas”.
A revolução não é uma invenção, justifica-se na escrita de Joaquim Moreira da Silva, “poeta carpinteiro” natural da freguesia de Vilar (1886-1960) que para António Pedro Ribeiro é merecedor de ser lembrado: “tinha poemas elevados. Os seus poemas estão ao nível do António Aleixo e de outros, e, além disso, era um grande lutador. Foi carpinteiro e anarquista, organizou revoltas populares, organizava pasquins e folhas volantes para distribuir pelo povo à porta da igreja, não podia com a hipocrisia. Ele merece maior reconhecimento nacional. Na terra onde vivo, Vilar do Pinheiro, havia um grupo de anarquistas que se chamava Mocidade Libertária”.
Em breve o poeta irá completar uma vintena de livros de poesia com ‘O Poeta Não Pára’ tal como os lugares da escrita: “continuo a escrever nos cafés, agora, escrevo essencialmente nos cafés de Vilar do Pinheiro. Antes escrevia muito na cidade, Porto, Braga, Póvoa de Varzim, Vila do Conde. Caneta e papel andam sempre comigo, ou converso ou escrevo. Quando era jornalista escrevia directamente no computador, mas agora escrevo sempre primeiro no papel, só depois é que passo para o computador. Acontece que ao passar do papel para o computador, faço algumas correcções, mas eu não sou de muitas emendas”. E recorda: “Quando era miúdo tinha muito jeito para desenhar e o meu pai dizia – tu és de traço directo, tu emendas muito pouco. Era bom em desenho livre, espontâneo, mas acho que perdi o jeito”.
Escreve algum poema a pensar na banda Sereias ou é repescado para o repertório? “Alguns poemas são feitos para serem letras, alguns são mesmo poemas Punk, tipo o ‘Primeiro-ministro’, ou este último single que se chama ‘Extrema-Direita Fascista’, são letras punk. Há poemas que digo sempre da mesma maneira, outros saem espontaneamente durante os concertos. Quando vou ao estrangeiro, digo em inglês, mas nunca é igual. Depois, existem os vídeos que devem procurar no YouTube. Neste momento está a ser trabalhado pelo guitarrista da Banda, Kauê Gindri, o próximo vídeo ‘A Floresta’, que dura 16 minutos, é uma viagem até o infinito e ao paraíso”.
Como observador e crítico, que leitura faz das convulsões políticas no mundo actual? “As tropelias constantes que assistimos diariamente é necessário combater, sempre com a alternativa da poesia, da música. Este gajo, o Trump é um Calígula, é um Nero. O Nero mandou incendiar Roma, o Calígula come o próprio filho do ventre da mulher – o gajo é igual. É como esses imperadores romanos, um doido varrido, com o poder militar que tem pensa que manda nisto tudo”.
Como é que justifica que numa sociedade, que teoricamente deveria estar mais bem informada, na hora de votar faz estas escolhas: “Alguém escreveu que vivemos num mundo de cegos e governado por imbecis. Nem todos cegos, nem todos imbecis, mas em maioria continuam a ser. A maior parte das pessoas estão fechadas na sua vidinha, nas famílias, não se preocupam com nada, só com a sobrevivência. Não vou dizer que uma pessoa que trabalha 14 horas por dia, que vai ler Platão, Aristóteles, Nietzsche, Schopenhauer, ou o que seja. Mas, há pessoas que perdem muito tempo em frente à televisão, aos computadores, aos telemóveis, parece que já nem conversam na rua. Às vezes, estão numa mesa a falar para o telemóvel. Isso é estúpido, é ridículo. Depois, deixam-se levar pela conversa dos outros, dos comentaristas, esses que desfazem a cabeça e o coração das pessoas”.
A visível degradação do ensino também coincide com a degradação das mentalidades? “Eu acho que os professores têm um papel fundamental para evitar isso, mas além de serem mal pagos obrigam-nos a fazer tarefas burocráticas, coisas que não deviam estar a fazer. Eu tive a sorte de ter no liceu um professor de português e um de filosofia que me fizeram interessar por essas disciplinas, pela sua importância na nossa formação. Comecei a escrever e a interessar-me pelo pensamento crítico”.
Para a Florbela Espanca, ‘Ser poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens’ ou ‘um fingidor’ como o Pessoa escreveu? “Esses são grandes poetas, mas há os medíocres que têm a mania que são poetas. É claro que eu não vou exigir que uma pessoa que está a começar a escrever, escreva muito bem, que seja como Arthur Rimbaud, que escreveu muito bem aos 16 ou 17 anos. Mas, publicam-se muitos livros de merda. Há editores que só querem dinheiro, mas temos que admitir que há alguns personagens que só mesmo pagos é que podem editar. Ninguém pegava naquilo. Depois há o razoável, o bom, o muito bom e o genial. O genial era William Blake, Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire, Camões, Fernando Pessoa, Antero de Quental, Cervantes, Saramago, Luis Pacheco, Gabriel Garcia Marques, Henry Miller ou Dostoyevsky”.
António Pedro Ribeiro considera que tem já uma obra publicada, mas ainda há muito mais para dizer: “Eu posso morrer hoje, posso morrer amanhã, já sou conhecido como poeta, como performer, ou seja lá o que for, ligado à música aos Sereias que já conheceram alguns palcos europeus em festivais e em concertos, como Espanha, Galiza, Holanda, Bélgica, Estónia e a República Checa. Já escrevi coisas que deixaram a sua marca, mas ainda não acabei”.
Há 25 anos publicou pelas Edições Silêncio da Gaveta "À Mesa do Homem Só", sem imaginar que muitos outros livros fariam o seu caminho. Depois de ter publicado ‘O Poeta Underground Passeia-se na Cidade com Dionísio e Jim Morrison" (Edições D. Flagra), como seria de esperar ‘O Poeta Não Pára’ é o seu novo livro.
Por: José Peixoto