Voz da Póvoa
 
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A Instalação do Imaginário

A Instalação do Imaginário

Cultura | 1931 | 6 Novembro 2019

Manuel Horta nasceu em 1970, em Almada. É licenciado em Artes Plásticas – Escultura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde concluiu também o Mestrado em Escultura. Cria, desenvolve e apresenta projectos artísticos regularmente desde 1993. Participou em exposições colectivas e eventos artísticos.

Desenvolve a actividade artística e de docência em projectos de intervenção comunitária e em escolas do ensino público. Desde 2013 que desenvolve o “Projecto Cividade”, na Póvoa de Varzim. Entre outras, realizou na Biblioteca Municipal Rocha Peixoto as instalações “Altos Tachos” e “Instrumentos”.

A Voz da Póvoa – Entre o deve e o haver da criação há uma superfície palpável?

Manuel Horta – O acto da criação começa no interior, mas torna-se visível quando passa para o exterior. Há uma superfície em si, onde essa criação assenta num plano de existência, um dos muitos planos do real ou dos múltiplos reais. Depois uma ideia leva sempre a outra. O fim nunca é um fim, mas sim a possibilidade de um novo projecto, um novo objecto, uma nova prática, um novo processo. Nunca há um fim, há sempre um princípio.

AVP – Há uma preocupação em criar dentro de uma prática ecológica?

MH – Eu tenho preocupações ecológicas na minha prática, mas o objectivo primeiro do meu trabalho não é sensibilizar para os problemas ambientais. Não deixo de ser sensível e de estar ligado a cem por cento a todas as preocupações e inquietações que nós possamos ter e procurar sempre soluções. Agora, acho que a prática artística não se pode fundar só numa causa, mas pode incluir muitas causas. A arte ou é sincera ou é um postiço.

AVP – A mestiçagem da arte não contraria um mundo cada vez mais xenófobo?

MH – Quando falamos de arte, estamos a falar de prática humana. Portanto, Homo sapiens, sapiens. Nós não fazemos arte para outros animais a não ser para nós, o nosso animal racional, e nós somos todos uma mistura, felizmente. Com o historial de migrações e de movimentações, umas felizes, outras infelizes, somos sempre mistura. Uma mistura daqueles que vão sobrevivendo ao longo das gerações. A arte é isso.

AVP – Criar seja no que for é nascer no passado, mas viver para futuro?

MH – É como plantar uma árvore. O fruto que ela vai dar é para o futuro. Quando temos uma perspectiva de viver pela prática artística e dentro do que sabemos fazer, não me vejo a criar para os meus avós. Eu vou trabalhar para aqueles que, se calhar, encontram isto numa lixeira. Dentro da minha perspectiva, as coisas são de um plano de existência muito humilde, mas com a consciência que se trabalharmos para o presente, estamos a reduzir muito a possibilidade artística.

AVP – Instalação rima com provocação?

MH – De facto, a instalação tem essa atitude. Deixa em aberto ou permite deixar em aberto o significado, joga com as referências do autor e com as referências de quem vê, que é o mais importante. A partir daí, o observador na sua múltipla leitura e com as suas múltiplas referências, integra, disseca, decompõe, acrescenta, tira, critica. Aí está, é provocado. Uma pessoa sente a provocação. O campo que há para a imaginação, para a reflexão até ao momento do esclarecimento, se é que o tem, desaparece.

AVP – Qual o projecto que está a desenvolver neste momento?

MH – Estou a trabalhar num projecto que tem a ver com terra e a nossa presença. A nossa forma de estar na terra e com a terra, nas suas múltiplas leituras. É um processo que envolve diferentes materiais, porque não me fecho numa matéria só. Tento perceber aquelas em que habitualmente trabalho e conhecer outras, ou ver até que ponto o próprio projecto me leva, não às matérias que nós gostamos, mas às matérias que realmente fazem parte dessa história. Não há projecto sem haver história.

AVP – Uma sala com soalho em terra numa cidade de pedra…

MH – A instalação agarra-se ao contexto. São referências culturais do destinatário, o público. Nunca fui agarrado ao conceito de nacionalidade, pelo contrário, vejo isto numa perspectiva internacional. A tal mistura necessária para haver humanidade e para haver arte. Nesse aspecto, acho que é muito importante a arte ter sempre espaço para a pessoa poder imaginar e ir além da visão ou da proposta do autor. Em termos práticos, é isso que interessa no meu trabalho.

Por José Peixoto


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