Voz da Póvoa
 
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A Cultura Quer Dar Passos Seguros para Sair da Intimidade

A Cultura Quer Dar Passos Seguros para Sair da Intimidade

Cultura | 1958 | 29 Julho 2020

Em cada ano se programa um outro. Em cima do joelho só o cotovelo é capaz de equilibrar o queixo, como ’O Pensador’ de Auguste Rodin. A cultura, como a vida, para ser sustentável, usa sempre a cabeça para anteceder e assegurar o futuro. É por isso que os eventos, quando se repetem, amadurecem crescendo e em cada ano rejuvenescem.

Para além das estações, cada vez mais alteradas no seu clima global que, chegam a ser tão estranhas, que das suas entranhas germinou uma pandemia. O alerta chegou e com ele a cultura ficou sem palco e a vida isolou-se em casa, em Estado de Emergência. Da Emergência veio a Calamidade Pública, o medo não quis saber dos heróis do Alexandre O'Neill e abriu as portas da rua. Aos poucos, com passos seguros, conduzidos pelas normas e regras da Direcção-Geral da Saúde (DGS), demos inicio a uma nova normalidade.

“Não voltaremos tão cedo a uma normalidade que conhecíamos. Infelizmente. A nossa vontade é voltar a fazer tudo o que fazíamos, mas como se vê nada é seguro neste momento. O tempo que atravessamos ensinou-nos a viver nesta indefinição. Penso que alguns aprendem, outros vão continuar, lamentavelmente, a agir da mesma forma. A Câmara nunca fechou, teve sempre os seus serviços a funcionar. Estivemos sempre ‘junto’ das pessoas, porque achamos que é esse o nosso dever e função, prestar um serviço social, sobretudo. Queremos também continuar com a área da cultura e da educação. Trabalhar nesse sentido e esperar que o regresso à normalidade seja possível”, é esta a vontade de Luís Diamantino.

O Vice-Presidente, Vereador da Cultura e Educação, revela que é tempo de voltar ao palco das artes: “Estamos disponíveis para trabalhar com as associações, mas na medida do possível, sem extrapolar as regras da DGS, somos pessoas responsáveis. Iremos voltar ao teatro, regressar à Feira do Livro e ao Festival Internacional de Musica da Póvoa de Varzim. Temos um apoio muito forte da Direcção-Geral das Artes, que de alguma forma nos motivou a não suspender o Festival de Música. Vamos lentamente voltar a uma certa normalidade”.

E acrescenta: “Tive também uma reunião com as direcções de todas as escolas do concelho para planear o arranque do próximo ano lectivo, que continua a ser uma grande incógnita. O novo ano lectivo começa com aulas presenciais, mas não sabemos até quando. A qualquer momento as circunstâncias podem mudar. Estamos preparados para aulas mistas, presenciais e online ou só online. Tínhamos um grande número de tarefas e trabalhos com as escolas que estão suspensas, como visitas de estudos, o Fórum de Saídas e Opções Profissionais, o acampamento juvenil ou o Dia Mundial da Criança. A normalidade é mais fácil, por isso a descoberta da vacina pode voltar a repor tudo o que estávamos habituados a fazer”.

Das Correntes d’Escritas se Leu um Tempo de Reflexão

A Póvoa de Varzim sentiu, como nenhum outro concelho, uma lâmina a cortar o fôlego. O país ainda não conhecia nenhum caso de infecção, pelo novo coronavírus, mas terminado o Correntes d’Escritas, corria a notícia de que Luís Sepúlveda, que participou no evento literário estava infectado. As reuniões sucederam-se e uma semana depois o Cine-Teatro Garrett encerrava as suas portas ao público. A cultura na cidade teve que lidar com a negação: “Foi passar de uma grande alegria a uma certa tristeza. O Correntes teve a presença de muita gente fora da Póvoa, com muita comunicação social presente e de repente acontece tudo isto. Caímos muitas vezes e precisamos levantar outras tantas. O chão é apenas um lugar de equilíbrio, não podemos ficar à espera que aconteça, temos que procurar resolver todas as situações, adaptando-nos a esta nova realidade. Foi o que fizemos e estamos a verificar agora como será o nosso plano para o próximo ano. O Correntes d’Escritas poderá ter que acontecer numa outra roupagem, mais à distância, com presença de público limitada, os autores, aqueles que não estiverem presentes, poderem entrar online. É uma questão que está em cima da mesa. Estamos a analisar todas as possibilidades, para continuar a fazer pela cultura”.

Luís Diamantino reconhece que as primeiras reuniões, depois do alerta, foram de desesperança: “Tive uma reunião com o pessoal que colaborou no Correntes d’Escritas e decidimos encerrar o Garrett, porque a pandemia vinha para ficar. De uma forma geral as pessoas atentas perceberam isso. Em Março chamamos a atenção de que não iriam realizar-se as festas de São Pedro. Muita gente não acreditou e até ficou revoltada com a possibilidade. A verdade é que o tempo infelizmente, deu-nos razão e ainda hoje nada sabemos do futuro, nem a DGS, nem a Organização Mundial da Saúde. Estamos todos com muita esperança que isto acabe, que passe depressa. Mas o conselho de momento é, procurarem outros caminhos e novas ideias. Vamos tentar nunca desistir. Fazer o que fazíamos de outra maneira. É este o desafio”.

As festas de São Pedro, tal como o previsto, acabaram por ser canceladas. Para o Vice-Presidente e Vereador da Cultura, não foi fácil convencer as instituições: “Sabermos que as festas são feitas e organizadas pelas associações. A Câmara apenas coordena e apoia financeiramente. A Comissão de Festas é composta por todas as Associações de Bairros que concluíram não haver condições para celebrar as festas em honra de S. Pedro, como habitualmente. Para além disso, reunimos o Concelho Municipal de Segurança que também reconheceu a falta de condições e propôs que não se fizesse nada em espaço público. Na reunião onde estavam todos os representantes das associações de bairro, ficou combinado que quem não cumprisse as regras aprovadas por todos seria penalizada e não receberia subsídio. A Juvenorte não cumpriu”.

Grande parte dos eventos foram cancelados, o Verão conVida, os Dias no Parque, eventos que se repetem anualmente por isso, acredita Luís Diamantino, a seu tempo o regresso acontecerá: “Quando a segurança e tranquilidade voltar, os eventos voltam a acontecer. Havia e vai voltar a haver uma habituação cultural. Temos um protocolo com o Varazim Teatro para no primeiro sábado de cada mês termos teatro no Garrett e com o cineclube Octopus, todas as quintas feiras há cinema. Queremos em Agosto ver cinema no Garrett. Tivemos que criar novos espaços e abrimos o jardim da Biblioteca. A Dr.ª Lurdes Adriano acedeu ao desafio e desenvolveu a ocupação daquele espaço amplo que permite distanciamento, o que não acontece na casa Manuel Lopes, que tem um jardim com espaço limitado. Os leitores podem também entrar em contacto online com a Biblioteca, falar com os técnicos para ver que tipos de livros querem. Temos que nos transformar. Vamos abrir um concurso para a digitalização de documentos que vai facilitar a vida dos investigadores. As plataformas online permitem-nos chegar à cultura em segurança”.

Vem Aí a Feira do Livro e o Festival Internacional de Música

A Feira do Livro é dos eventos mais maduros e persistentes. O facto de ser organizada ao ar livre, no Largo do Passeio Alegre, facilitou o caminho e vai mesmo acontecer entre os dias 31 de Julho e 16 de Agosto. “Com o desconfinamento, conversei com o presidente da Câmara e dado que se tratava de um evento ao ar livre, seguindo as directrizes da DGS, criamos um Plano de Contingência, com marcações, obrigação de uso de máscara para os livreiros e uso de gel desinfectante, que foi aprovado pelo Delegado de Saúde. É essencial para os livreiros e para o mundo do livro que este tipo de evento aconteça. Gostaríamos de fazer muito mais e de outra forma, mas as limitações obrigam a adaptar os eventos”.

E Luís Diamantino acrescenta: “Com regras já foi possível participar nas comemorações do dia do cinquentenário do Racho Folclórico de São Pedro de Rates. Fazemos o que é possível, o impossível não passa de desejo. Temos que ser racionais e dar um passo de cada vez. Foi um momento simbólico, mas de grande importância. Estávamos 20 pessoas na sala e muitas outras lá fora. É esta razoabilidade que faz com que toda a gente compreenda o que se está a passar”.

O Festival Internacional de Musica da Póvoa, tal como outros eventos esteve na eminência de ser cancelado. A importância do Festival, a persistência do Jovem director, levou, primeiro, ao adiamento para Setembro e depois à confirmação de datas: “O Raúl Costa estava sempre em contacto comigo e muito preocupado porque queria muito fazer o festival. Todos nós queríamos, mas tivemos que enfrentar a ansiedade e procurar a calma para que fosse possível fazer o Festival. Esperemos que em Setembro, possamos realizá-lo. O Raul conseguiu arranjar outros caminhos para chegar a mais gente, através de protocolos com a RTP. Este tempo aguça o engenho das pessoas e todos tivemos que pensar uma forma de lá chegar. De momento, estamos todos de parabéns, nós e a comunidade poveira para quem trabalhamos”.

Luís Diamantino recorda também a Associação Pró-Música da Póvoa de Varzim, a escola que tem formado imensos talentos: “Mesmo com os tempos complicados que vivemos não chegou a silenciar. Os professores compreenderam que era importante continuarem ligados aos alunos. O ensino da música é muito peculiar, porque há uma ligação professor-aluno muito forte. O professor de instrumento tem um aluno ou dois.

Esta ligação fez-se online, a forma de estarem presentes à distância. As aulas acabaram por acontecer, dentro da normalidade possível e os alunos foram avaliados no final. Tivemos sempre o reconhecimento e apoio dos pais. Este ano lectivo vai começar presencialmente e vamos ocupar as três salas da Casa da Juventude”.  

Pensar amanhã, é uma aventura: “Planificamos, mas não sabemos se amanhã este plano definido hoje poderá ser posto em prática ou ser reavaliado e renovado. É um facto. Temos que estar preparados, até para começar tudo de novo. Quem for demasiado rígido nas suas intenções pode não ir longe. Temos um livro para apresentar sobre o Eça de Queiroz, da professora Gisela Silva. Podemos fazê-lo no Cine Teatro Garrett cumprindo as normas, com um limite de presença de pessoas. As coisas neste momento só podem funcionar por marcação. O mesmo acontecerá na apresentação do Boletim Cultural, não pode ser de outra forma. Não podemos estar todos juntos, sem máscara, sem regras. Não nos devemos arrepender das medidas que tomamos e de as cumprir, das coisas que não fazemos e gostávamos de fazer, sempre com a esperança de que se cumprirmos agora, mais rapidamente podemos voltar ao que mais desejamos fazer. Se pelo contrário, o cuidado e a preocupação não existirem possivelmente, este tempo de incerteza será bem mais demorado”.

Para Luís Diamantino usar mascara é defender o outro, mesmo que isso nos custe em efectividade: “As pessoas que me conhecem e felizmente são muitas, sabem que eu sou uma pessoa muito táctil. Gosto de abraçar e cumprimentar, quem me tira isso, tira-me um bocado da vida. Gosto de mostrar o afecto que tenho pelas pessoas e hoje estamos com uma distância que tenho medo que se torne um hábito. Hoje, são os nossos olhos que mais cumprimentam”.

 


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