
No vale onde o vento aprende a falar baixo, crescem papoilas vermelhas como pequenas chamas presas à terra. Ninguém se lembra de quando surgiram, mas todos sabiam que ali o silêncio tinha peso e memória. Diziam os mais velhos que as papoilas cantavam – não com voz, mas com uma melodia que só o coração atento conseguia ouvir.
Lia passava pelo vale todos os dias, a caminho do rio. Era filha de gente simples e trazia nos olhos uma curiosidade antiga, como se tivesse nascido já com saudade de algo que nunca vivera. Desde pequena sentia que aquele campo lhe pertencia de algum modo, ou talvez fosse ela que pertencia a ele. Quando o vento atravessava as flores, Lia parava, fechava os olhos e sentia o coração apertar-se, como se uma canção sem palavras lhe tocasse por dentro.
Certa tarde, encontrou uma papoila diferente das outras. Era mais alta, o vermelho mais profundo, quase escuro. Ao aproximar-se, o ar mudou: o silêncio tornou-se denso, vibrante. Lia estendeu a mão, e no instante em que tocou a flor, a canção revelou-se inteira.
Viu então o que o vale guardava: um tempo antigo de guerra e perda, quando jovens tinham partido e nunca regressado. As papoilas haviam nascido do chão marcado por passos interrompidos e promessas quebradas. Cada flor era uma lembrança, cada pétala um nome esquecido. A canção não era de tristeza apenas, mas de permanência – um pedido para que nada fosse apagado pelo esquecimento.
As lágrimas de Lia caíram sobre a terra, e o vento pareceu suspirar. Pela primeira vez, alguém ouvira a canção sem fugir dela. A papoila escura inclinou-se levemente, como em gratidão, e o vale inteiro ondulou num vermelho vivo, pulsante.
A partir desse dia, Lia começou a contar histórias. Sentava-se à beira do campo e falava dos que vieram antes, dos que amaram, sonharam e partiram cedo demais. As pessoas começaram a parar, a ouvir, a lembrar. E, pouco a pouco, o vale deixou de ser apenas um lugar de passagem.
Dizem que, até hoje, quando o vento passa pelas papoilas, a canção continua. Não mudou, mas já não está sozinha. Mistura-se agora com vozes humanas, com histórias partilhadas, com a certeza de que lembrar também é uma forma de cantar.
Isabel Rosas, escritora