Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Contrato

Turistando Lendas e Lugares – Contrato

Opinião | 18 Junho 2021

Recostada à cabeceira da cama ela divagava acerca da multiplicidade das palavras, e cada vocábulo que brotava da ponta da pena que carregava, trazia consigo a alma de todos os poetas.

Nunca fora uma mulher de rimas, os múltiplos sentidos a seduziam mais. Eram dotados daquele mistério que apenas os amantes das letras conseguiam decifrar, em algum lugar entre a honestidade e o sarcasmo.

Escritora não era, antes Domadora de Palavras!

Laçava-as no vento e as maneava por tempo suficiente até que, por vontade própria, passassem a fazer parte da tropilha.

Uma sina herdada, deveras, do próprio Minuano. Juntamente com um contrato, firmado a sangue e ferro em brasa, de não lhes vilipendiar o significado, de jamais jogar seus corpos aos cães vadios, incapazes de lhes perceber a verdadeira essência.

Abriu o seu livro de contos, onde elas se apinhavam para formar as mais belas mensagens. Verdadeiros tesouros, de inspiração divina, transcritos pela mão do homem e imbuídas de todo o respeito e admiração que ela nutria em seu peito, por reconhecer que não foram por ela inventadas, apenas emprestadas.

Entre as páginas antigas e amareladas ela as recolheu, uma a uma, e mergulhou no seu significado. Deixou-lhes despertar os sentimentos para as quais foram criadas.

Cada um deles, sem preconceitos ou juízo.

Depois as colheu, com reverência e, com uma linha tão transparente quanto a sua própria alma, coseu-as umas às outras, de maneira perfeita de modo a disfarçar os remendos, e lhes deu outra serventia, deixou que nutrissem outros sonhos e afagassem outros espíritos.

Depois da doma ela descansara, ciente de ter espalhado a semente a ser regada por aqueles que compartilham do mesmo âmago que ela e que a tornam, a cada dia, absoluta.

Quando, ainda guria, herdou esse contrato mal sabia que ele seria a antena que atrai os seus iguais!

Maria Beck Pombo

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