Voz da Póvoa
 
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Turistando Lendas e Lugares – Cinderella às avessas

Turistando Lendas e Lugares – Cinderella às avessas

Opinião | 1957 | 15 Julho 2020

Nos pagos de onde venho existe uma tradição de apresentar as prendas à sociedade quando completam 15 anos de idade.

É um verdadeiro evento onde as gurias usam longos vestidos brancos e dançam a valsa no centro do salão, primeiro com seus pais e depois com seus pares escolhidos à dedo geralmente pela família das moças. A essa cerimónia dá-se o nome de Baile de Debutantes e ainda hoje é o sonho de qualquer guria por aquelas bandas.

Escusado é dizer que para a “gata borralheira” aqui a fada madrinha perdeu-se deixando meu conto de fadas trancado entre as páginas dos livros.

Fato é que até o último momento eu tive esperanças de também ser a Cinderella a adentrar o salão, dançar com o príncipe e fugir às 12 badaladas. Mas ao invés dessa cena meus pais deram-me algo muito mais fantástico: deram-me a oportunidade de fugir daquela cidade e das decepções que se plantavam em mim toda a vez que a vida esfregava-me o doce na cara e o entregava a outra pessoa qualquer.

Eu não fui uma debutante mas tive uma festa de 15 anos memorável. Foi num Salão Paroquial na Avenida Presidente Vargas, na cidade de Santa Maria e contou com a presença de pessoas queridas vindas dos mais longínquos rincões.

O orçamento era curto mas tal como a prenda dos contos também eu tinha bons amigos, que não eram ratos ou pássaros, eram pessoas reais que amavam-me de verdade.

A decoração foi-me oferecida por um amigo dos meus tios: autênticos graffitis que brincavam com meu nome e imagens de instrumentos musicais. A música foi garantida pela banda de outros amigos, meus pais asseguraram cerveja e churrasco para a centena de convidados e quem precisa de garçons quando se tem parentes?!

E o bolo, ah o bolo! Adentrou triunfante no salão pelas mãos de um cambicho em cada ponta, situação que até me fez corar. Sim, porque esse coração era grande demais na altura para encerrar um cambicho só!

Mas a parte mais marcante da minha festa, que estendeu-se até as 5 horas da matina, foi a valsa dançada primeiro com meu pai e depois, ao invés de um par escolhido pela minha família, com primos, tios, amigos, irmãs, avós. Com toda a gente que encontrava-se naquele recinto fazendo-me sentir parte, não mais à parte. E enquanto eu girava pelas mãos de quem quer que fosse podia vislumbrar a alegria que contagiava a todos, o sentimento de partilha, o empenho de cada um em tornar o meu dia mais que especial.

Percebi assim que nem um vestido branco poderia fazer-me mais feliz pois eu sou de todas as cores!

 

Maria Beck Pombo

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