Voz da Póvoa
 
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Correntes d’Escritas de Expressão Ibérica para o Mundo

Correntes d’Escritas de Expressão Ibérica para o Mundo

Cultura | 16 Abril 2021

Atravessou um ano desde o dia em que o abraço, o beijo amigo ainda se dava como forma de afecto, de cumprimento, mas o aviso chegou em forma de vírus e transformou-se em pandemia. Depois de uma abertura tímida de portas à cultura, chegou-se a pensar que dentro das normas da Direcção Geral da Saúde, com regras de segurança e limitações na lotação do Cine-Teatro Garrett, o Correntes d’Escritas iriam apresentar-se em público, como sempre aconteceu. Não, a razão exigiu uma alternativa única, entrar na casa das pessoas através das redes sociais do Município.

“Tínhamos esperança, temos sempre, no entanto, o desafio foi-nos colocado pela impossibilidade que o tempo nos trouxe. A vida é um desafio diário e temos que saber ultrapassar os obstáculos que nos aparecem diariamente. Se fosse tudo fácil não dávamos valor às nossas vitórias. O Carlos Lopes, o nosso campeão Olímpico da Maratona, dizia que aprendia muito mais com as derrotas do que com as vitórias. No Correntes d’Escritas, o nosso perder é ganhar este momento, adaptando-nos. Não é a primeira vez que nos reinventamos. Se tivéssemos que desistir, tínhamos dado esse passo no segundo encontro de escritores, onde as críticas foram muitas e não o fizemos. Resistimos. Depois, houve um segundo momento quando a crise nos trouxe a Troika e houve cortes orçamentais em tudo, não parámos, reduzimos o número de dias e baixámos os custos, com essa atitude conseguimos manter o Correntes d’Escritas. Nessa altura, houve quem propusesse que fizéssemos em cada dois anos. Resistimos. Agora, temos este terceiro momento que é esta crise sanitária e estamos a resistir. A vida é feita de resistência”, recorda Luís Diamantino.

O Vice-presidente e Vereador da Cultura reconhece que o encontro de escritores estava a ser preparado para receber pessoas mas tudo teve que ser alterado: “Não tivemos alternativa. A coluna vertebral do Correntes d’Escritas são as mesas, onde cada convidado intervém sobre um tema. É um momento de união entre os escritores e o público. Depois, a ligação com o mundo do livro, onde temos os agentes literários, os tradutores, os editores, os livreiros, os jornalistas, todos juntos formam uma rede que faz com que o mercado do livro funcione. E no momento, sem percebermos porquê, as livrarias estão fechadas, eu e qualquer leitor não compreende isto, expliquem-me. Temos o alimento para o corpo, mas também precisamos do alimento para o espírito e agora muito mais. Daí, termos começado a levar os livros a casa das pessoas, num projecto da nossa Biblioteca. Como não podemos apresentar livros nem vendê-los, tivemos que adiar os Prémios Literários da Porto Editora, o Conto Infanto-juvenil para os alunos do 4º ano, que também não têm aulas presenciais. Como não é possível fazer a feira do livro, também será adiado para o próximo ano, o prémio Papelaria Locus. Vamos entregar o prémio Literário Casino da Póvoa e o prémio Literário da Fundação Luís Rainha, que está a ser analisado pelo José Ventura, José Carlos Vasconcelos e pela Dr.ª Conceição Nogueira”.

A poesia nos últimos anos ouviu-se pelas ruas, Mercado Municipal e edifícios públicos, mas desta vez, as Vozes Transeuntes vão mais longe: “Todas as freguesias servem de cenário nesta viagem pela poesia, os seus lugares emblemáticos. Com a poesia vamos promover o património cultural e turístico que temos, uma oportunidade, que de outra forma não seria agarrada. As Vozes Transeuntes nas ruas da poesia (Rui Spranger, Isaque Ferreira, João Rios e o Renato Filipe Cardoso) vão ser ouvidas Online e creio que vamos chegar mais longe e a mais público. O mesmo vai acontecer com alguns leitores que costumam assistir ao Correntes d’Escritas e que se disponibilizaram a participar através das redes sociais”.

E Luís Diamantino acrescenta: “Estamos a reinventar-nos e a aproveitar aquilo que a Póvoa tem de bom. A Camisola Poveira, um símbolo da cidade e muito ligada às raízes piscatórias, uma marca registada pela Câmara Municipal em 2015, vai fazer parte de um projecto nesta edição do Correntes. Geralmente, apresenta-se sempre o lado do pescador, do homem do mar, do herói, mas esquecemos a mulher que fica à espera, ‘A Penélope’ que espera Ulisses. Ele no mar e ela a tecer, a bordar, a eterna viúva do mar. Este projecto inovador ‘As Penélopes” envolveu 12 escritoras e 12 artesãs que conceberam 12 camisolas poveiras com símbolos inspirados nos textos que cada uma das escritoras escreveu. É o ponto cruz da escrita e do papel com o fio de lã. O resultado acabará numa instalação que vamos fazer no Diana-Bar, será filmado e colocado Online para o mundo ver. É uma imagem pescada no fieiro, onde dois remos cruzados seguravam uma corda, que desenha um barco ao contrário e, penduradas nessa corda vão estar as 12 camisolas poveiras. Depois, temos um livro com os textos e as fotografias das camisolas. Toda esta criação fará parte de um documentário. É uma forma de elevar a Camisola Poveira, como símbolo da nossa terra e divulgá-la além-fronteiras”.

Uma Corrente de Inspiração Promove o Livro e a Leitura
  
O programa está disponível Online, mas é sempre bom perceber que a grande adesão de escritores acaba por reforçar a importância angariada em mais de duas décadas de Correntes d’Escritas: “É extraordinário perceber que os escritores que já passaram pelo evento literário aderiram em grande número, reconhecendo que esta é a única forma que temos neste momento de fazer as coisas. A nossa vontade natural era que todos pudéssemos trocar olhares, palavras e afectos. O mundo vive um momento de incógnita e hesitação, mas ninguém pode desistir, nós não desistimos. Vamos ter 154 participantes nestas Correntes e entre 120 a 130 são escritores do espaço das línguas ibéricas. Mais uma vez, vamos poder contar com o Onésimo Teotónio de Almeida e o Manuel Rui, dois escritores que nunca faltaram à chamada. Temos leitores que participam há 21 anos no Correntes e vão dar a sua voz. Serão dois dias cheios de histórias, de cumplicidades, de afectos, mesmo que à distância”.
 
A perda do escritor Chileno Luís Sepúlveda, presente na última edição do Correntes d’Escritas, vai merecer várias homenagens revelou o Vereador da Cultura: “Os temas das mesas serão frases retiradas dos livros do Sepúlveda. Teremos uma exposição na Biblioteca do Daniel Mordzinski, o fotógrafo argentino, que acompanhou muito de perto o escritor, com o título ‘Mundo Sepúlveda’. Será lançado um belíssimo catálogo que vai marcar esta homenagem. O número 20 da Revista Correntes d’Escritas é dedicado a Luís Sepúlveda, com textos dos amigos escritores. A revista vai estar à venda na Biblioteca, no Museu e nas livrarias poveiras. Sabemos que o escritor chileno era um resistente, um lutador pela liberdade de expressão, de sermos diferentes”.

Há lugares d’Escritas que se repetem no imaginário: “Tínhamos a Residência Artística, na casa do Manuel Lopes, na Fundação Luís Rainha e no Museu Municipal, que resultou na publicação de um livro com os textos dos escritores que habitaram esses lugares. Este ano, convidamos oito escritores: Afonso Reis Cabral, Bruno Vieira Amaral, Filipa Martins, Manuel Jorge Marmelo, Margarida Ferra, Maria Quintans, Ricardo Fonseca Mota e Teolinda Gersão. Só que desta vez, a residência é uma casa vazia de gente e, o escritor terá que imaginá-la e escrever um conto passado aqui na Póvoa. Será um conto numa residência ficcionada. Ou seja, uma residência literária sem residência. Temos também um momento em que o público vai poder recordar em dois ou três minutos, por palavras suas, memórias marcantes do Correntes d’Escritas. Lançamos, também, o desafio para nos mandarem pequenos vídeos com leituras de um conto lido em família. Depois, com a sua autorização vamos colocar Online. O mesmo vai acontecer com o Documentário de João Cayatte. Revelo também que a leitura da «História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar» de Luís Sepúlveda, será feita em capítulos, sendo o primeiro lido pelo Presidente da Câmara, depois sou eu segue-se a Manuela Ribeiro. Ou seja, é uma leitura feita pelos colaboradores do Correntes d’Escritas. Vai ser uma experiencia interessante”.

O evento que outros acabaram por copiar volta a ser inovador na forma como acontece este ano. Para Luís Diamantino, este pode ser um exemplo a seguir: “A conferência de abertura vai ser com o escritor argentino Alberto Manguel, moderada pela jornalista Ana Daniela Soares. O escritor vive em Lisboa e quer fundar um Centro de Estudo da História da Leitura. Tudo o que vai acontecer no Correntes d’escritas tem como palco as redes sociais. Há um trabalho de muitos dias seguidos a gravar, a misturar, há muito trabalho técnico. As coisas que vão acontecer em dois dias têm muitas horas de repetição e cansaço. Depois, tudo tem que ser colocado numa ordem cronológica. Fazer na hora dá muito menos trabalho. É também uma oportunidade que temos para nos concentrar naquilo que é verdadeiramente importante. É reforçar aquilo em que acreditamos, a cultura, porque sem ela não temos nada. Depois, dói-me saber que os homens e mulheres que vivem praticando e fazendo cultura, estão a passar uma fase muito difícil, trágica mesmo”.

Fazer Mais Pela Cultura É Nunca Estar Farto

Podemos sempre insistir numa outra forma de chegar, até inovar, mas há sempre um risco, uma crítica: “Era muito mais fácil não fazer e creio que as pessoas até iam compreender. Temos que perceber que há dois tipos de pessoas: Os que não fazem nada e os que fazem. Quem faz, arrisca sempre. Para acontecer, temos que fazer e há sempre as duas possibilidades, correr bem ou mal, mas não podemos estar com receio das críticas. Já passámos por várias fases. Iniciámos, repetimos e os que se seguiram custaram sempre menos a fazer. Tenho a certeza que esta é uma oportunidade para chegar mais longe, para sermos mais vistos, mais ouvidos, mais conhecidos no exterior. Vamos chegar à nossa diáspora, no Brasil, na África do Sul, no Canadá, onde há muitos poveiros e curiosos. Não temos que ter medo de avançar, temos é que ser criativos, reinventarmos constantemente e inovar sempre que possível. A vida só tem sentido se aceitarmos todos os desafios que ela nos coloca”.

Para Luís Diamantino haverá sempre uma continuidade, mesmo quando regressar  o tempo da presença de escritores e de público: “Servimo-nos da experiência que tivemos no Festival Internacional de Música, onde tivemos a transmissão de concertos em streaming e em presença, com as salas a receberem menos de metade dos espectadores. Correu bem e tivemos muita gente a assistir. Aliás, um dos membros do júri que é da Direcção Geral das Artes, felicitou-nos por persistirmos, por fazermos acontecer cultura quando outros desistiram. Penso que é esta a nossa marca distintiva, nunca desistir e fazer as coisas acontecer”.

A reabertura dos teatros com todas as regras de segurança, com a obrigação da higienização das mãos à entrada, sendo que em algumas salas até a medição de temperatura era feita aos espectadores. Não se conhece qualquer notícia de um possível contágio numa sala de espectáculo, no entanto, com o novo confinamento voltaram a encerrar as salas de espectáculo, como o Cine-Teatro Garrett: “Ninguém sabe nada sobre o que está a acontecer. A prova disso é que todos os dias estamos a mudar. Vejo com grande tristeza tudo isto, mas não nos podemos render, desistir nunca. A Câmara Municipal tem protocolos com as associações culturais nas áreas do teatro, música e cinema, continuamos a apoiar as associações, porque depois da pandemia, elas têm que prosseguir com a sua actividade. Confesso que ver a cidade confinada e o Cine-Teatro Garrett fechado, quando tínhamos uma actividade absolutamente preenchida sem fins-de-semana livres, o mesmo acontecia um pouco por outros espaços culturais da cidade, como a Biblioteca, o Museu e por outras associações, isso deixa-nos tristes. Ultimamente, depois do trabalho autárquico, fecho-me em casa com os livros. Mas, nós que gostamos de livros, de contar histórias, de ouvir, gostamos de sonhar, acreditamos que é possível voltar ao tempo que tivemos”.

Fevereiro d’Escritas a Semear as Correntes Literárias

“Nós só damos valor às coisas que perdemos. Quando as temos damos por certas. Esta pandemia demonstrou que temos que aproveitar a oferta. Isto de não poder sair de casa era impensável. Podíamos ir a um espectáculo e tanta gente sem o fazer, mesmo gratuitamente. Agora, quem nos dera poder assistir, ver. Espero que no regresso à normalidade, as pessoas sintam essa vontade e possam usufruir da cultura que sempre acontece aqui ou ali. E que possam também voltar ao afecto”.
 
A Póvoa é um exemplo na construção do edifício da memória, ao manter o Boletim Municipal há várias décadas, ao ter criado uma biblioteca com a chancela própria. Há uma consciência, mas também a liberdade de procurar o raro, o incomum: “A certa altura, em conversa com o Manuel Lopes, fomos percebendo que estávamos a apoiar diversos livros, alguns editados pela própria Autarquia. Daí, surgiu a vontade de criar uma biblioteca poveira, que editasse a sua história e etnografia, as suas gentes, mas também estudos sobre o urbanismo ou estórias da Póvoa. Assim nasceu ‘Na Linha do Horizonte’. Foi feita com consciências, mas como disse e bem, há muitos trabalhos de investigação, de pessoas da Póvoa que são sempre bem-vindos. O Arquitecto Campos Matos vai editar a sua biografia, contactou-me e nós vamos apoiá-lo, como o fizemos em vários livros que publicou sobre o Eça de Queiroz. Estamos sempre prontos para promover a Póvoa e escritores ligados à Póvoa como a Luísa Dacosta. Tudo isto enriquece o nosso espólio patrimonial”.

À pergunta: Como se lembrou da Dr.ª Conceição Nogueira para dirigir o Boletim Cultural? Luís Diamantino responde com outra: “Como é que não me havia de lembrar da minha professora para dirigir o Boletim cultural? Há duas palavras que me perseguem toda a vida, a gratidão com todas as pessoas que me tocaram e a humildade, porque sei que estou sempre a aprender e tenho que ter essa disponibilidade perante os outros. São duas palavras em desuso”.

Fevereiro é o mês d’Escritas. Nunca foi equacionado o adiamento. “Adiámos o Festival de Musica para Setembro, mas as Correntes não podem ser adiadas. É o início do ano literário no País. Os escritores, os editores, os livreiros não iam entender isso. Venha o que vier em tempos futuros, o Fevereiro será sempre o mês do Correntes. Já provamos que nunca desistimos e este ano é a melhor prova disso. Não é fácil levar a bom porto este barco de literaturas. Para o Correntes, pior que separar as pessoas não pode haver. O escritor, o livro, o leitor. Esta reorganização toda pode dar uma nova vida e podemos aproveitar algumas coisas para o futuro, quando estivermos todos em presença. Por exemplo, nos poemas que vão ser lidos pelas freguesias, para além da pessoa que está a ler o poema, vai estar alguém a fazer linguagem gestual. O facto de estar online facilita isso. Temos que saber elevar o Correntes d’Escritas”.

E Luís Diamantino conclui: “Devem ver este momento como uma continuação de todos os outros que vivemos nestes 22 Anos. Estar com escritores que conhecemos, mas que vamos ouvir e ver coisas novas de cada um, será enriquecedor. Vivam estes dois dias com alegria e que sejam um medicamento para tudo o que nos tem acontecido neste último ano, que não deixa saudades, mas que acreditamos, passará. A Carmen Yáñez, esposa do Sepúlveda, escreveu: eramos tão felizes e não sabíamos”.

Por: José Peixoto

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