Voz da Póvoa
 
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A Floresta nunca Ardeu por ser Verão

A Floresta nunca Ardeu por ser Verão

Opinião | 2 Setembro 2026

 

As alterações climáticas a surfar nas ondas de calor passaram a ser o álibi das incompetências na prevenção, no combate aos incendiários que ano após ano, delírio após delírio, orgasmo após orgasmo, continuam a ser tratados por delinquentes de delito comum, com apresentações semanais na esquadra mais próxima. Para trás das costas ficaram milhares de hectares de terra queimada, florestas dizimadas, habitats únicos desaparecidos, animais, casas, pessoas, vidas perdidas.
 
Alguém por acaso ainda se lembra de quantas estações o ano tem, que a seguir à Primavera sempre chega o Verão a derreter o corpo de calor, a amarelar os pastos, a sumir a água nos lameiros, a transformar rios em ribeiros e a secar a água no rego onde o boi ainda em Maio bebia. As ondas de calor no Verão nunca foram novidade, nunca serviram para justificar incêndios. Calor não é sinónimo de fogo como parece alguém com responsabilidade nos querer convencer.

Planeamento florestal e territorial, guardas florestais, só no parque da Peneda Gerês havia doze casas da guarda, ainda lá estão, a maioria em ruina, naturalmente com a redução drástica da pastorícia, de animais ruminantes pelo monte, e o abandono da vigilância, a exigência de matas limpas foi subtraída e os incendiários encontraram terreno fértil para as suas alucinações criminosas.

É uma guerra, um combate que já deixou há muito de se concentrar na chamada época de incêndios. Não há mês do ano que os fósforos não raspem, que o isqueiro não liberte o gás, que os bombeiros não tenham serviço de mangueira na mão. 

Se querem limitar os incêndios às reacções da natureza, como a trovoada, ou uma qualquer descarga eléctrica de um raio com pontaria numa árvore, não é muito complicado consegui-lo, mas é preciso coragem política para o fazer. Deixemo-nos de conferências e de decisões de gabinete que contribuem para as alterações climáticas ao contrário do anunciado. Uma paisagem de painéis solares pode melhorar a carteira dos investidores, mas piora a cabeça dos moradores enquanto o clima suspira pelas árvores.

Os milhões que se gastam em viaturas e outros meios de combate a incêndios, aviões cada vez mais privados a ganhar quanto mais arder, sem que se aposte verdadeiramente na prevenção é a prova de que o negócio rende. Drones para guerrear, o país é incentivado pela indústria de guerra a comprar, mas para vigiar a floresta parece ser um custo incompatível com a necessidade.

Provavelmente, já reparou que é por zonas, um ano o fogo concentra-se mais ao Centro e outros mais a Norte, o Sul já ardeu ou tem pouco para arder. Há quem acredite em coincidências e nada faça para o comprovar. Chamam-lhe combustível e não sei como alguém é capaz de o queimar sem pensar nas consequências. Saiba que o planeta terra é o único que tem árvores, e sem elas não há transição climática capaz de travar o aquecimento global.

Pablo Rios Antão

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