
Os estudos revelam que nos últimos 33 anos, as doenças mentais aumentaram cerca de 96% em todo o mundo. Curiosamente, os jovens e adolescentes surgem como um dos grupos onde mais cresceu este tipo de doenças. A ansiedade e a depressão continuam a ser os problemas de saúde mental mais comuns em todas as faixas etárias. Uma maior consciencialização pública do problema que nos liberte da estigmatização, leva-nos a procurar ajuda que pode resultar num maior número de diagnósticos. Por isso, a consulta de neurologia é a melhor opção.
Para o neurologista, Pedro Beleza, a criação do Centro de Neurociências no Hospital da Luz, Póvoa de Varzim, foi um grande passo no tratamento e diagnóstico de doenças do foro neurológico: “Temos uma equipa de profissionais diferenciados da área de Neurociências, todos focados na saúde do doente. A vantagem da criação deste Centro é a possibilidade de termos vários especialistas coordenados num único espaço, onde também se partilham os meios complementares de diagnóstico. Ou seja, tem uma melhor acessibilidade à realização dos exames de neurofisiologia que permite um diagnóstico mais rápido e mais preciso. Por sua vez, o tratamento pode ser iniciado mais cedo e mais completo. Não se trata apenas de um tratamento sintomático e etiológico, mas também de recuperação da função. Para isso, temos a ajuda da terapia da fala e da terapia ocupacional”.
Qual é o circuito de um paciente que chega aqui ao Centro de Neurociências com determinado sintoma? “Primeiro entra pelas consultas de Neurologia, de Neurocirurgia ou de Psiquiatria. O que fazemos na consulta é traduzir este sintoma num diagnóstico. Portanto, levantamos uma hipótese diagnóstica, que poderá ter de ser confirmada a nível dos exames que são efectuados no mesmo Centro – um electroencefalograma, uma eletromiografia, ou mesmo uma avaliação neuropsicológica, por exemplo, no caso das demências, pela parte da Psicologia”.
Em que situação é que os pacientes procuram as consultas da especialidade? “A maior parte dos doentes que vêm à consulta têm dor de cabeça, que nós designamos por cefaleias, a segunda causa que leva mais pacientes a recorrer à consulta de neurologia, são as tonturas ou as vertigens, a terceira são queixas relacionadas com a memória, estão mais esquecidos, que têm alterações da linguagem, depois, seguem-se as alterações do sono, as insónias. Este é o panorama geral da parte da neurologia, por frequência”.
Sabemos que há aqui algumas questões que têm tratamento ou cura, mas outras, digamos, prolonga o tempo em que o paciente pode viver melhor: “Em relação às doenças neurológicas que acompanhamos, as doenças crónicas mais frequentes são sobretudo as cefaleias de tensão e as enxaquecas. E o que nós fazemos nestes doentes, se forem situações de dores de cabeça que já impliquem alterações da função, ou seja, dores de cabeça muito frequentes, começamos por fazer um tratamento profilático, um tratamento preventivo específico destas situações crónicas de dores de cabeça. As cefaleias de tensão são as mais habituais, geralmente bilaterais, em aperto, de intensidade ligeira e não agravam com o exercício físico. As enxaquecas são habitualmente unilaterais, pulsáteis, a luz incomoda, o ruído incomoda, há doentes que, inclusivamente, vomitam e o exercício físico agrava”.
As demências são outra situação crónica: “Infelizmente, cada vez é mais prevalente e está relacionado com o aumento da sobrevida da população, os doentes cada vez apresentam mais demências, à cabeça vem a doença de Alzheimer, que é a mais prevalente, constituindo entre 60% a 80% dos casos de demência. É preciso dizer que, nas demências, a maioria dos tratamentos são sintomáticos. Infelizmente, nestes casos, não conseguimos alterar o curso natural da doença”.
O sistema nervoso, incluindo o cérebro, a medula espinhal e os nervos periféricos são a base das neurociências, um estudo cada vez mais alargado: “Isso acontece porque as doenças neurológicas são a causa número um da incapacidade. Por exemplo, a enxaqueca causa mais incapacidade que todas as outras doenças neurológicas juntas. Depois são as demências, a epilepsia, a doença de Parkinson, os acidentes vasculares cerebrais. Convém não esquecer que o acidente vascular cerebral é a causa número um de mortalidade no país”.
Segundo o neurologista, Pedro Beleza, a prevenção obedece a três conceitos importantes: “Estimulação cognitiva. O conceito é que o doente, durante pelo menos 30 minutos por dia, tenha alguma actividade cognitiva. Tão simples quanto ler um livro, escrever, fazer fotografia ou jogar cartas. Isto sem ter qualquer sintoma. O segundo é actividade física durante 30 minutos. O conceito é pelo menos uma caminhada que seja com a intenção de praticar desporto. E o terceiro conceito é actividade social frequente. Estes três conceitos são uma boa maneira de melhorar a reserva cognitiva”.
Hoje em dia os rastreios são cada vez mais comuns, no entanto, não se ouve falar em rastrear as demências: “De uma maneira geral não é necessário fazer nenhum tipo de rastreio neurológico. O que se aconselha é a pessoa vir quando há algum sintoma. Os rastreios, de uma maneira geral, devem ser feitos mais no âmbito do médico assistente que sinaliza alguma alteração e depois envia para nós. Isto é o que se aconselha. E o que se pretende com o Centro de Neurociências é ter esta linha de raciocínio bem presente. Faz toda a diferença”.
O Hospital da Luz está atento à aprovação de novos medicamentos e na vanguarda tecnológica dos equipamentos: “As duas partes são importantes, o tratamento e o diagnóstico que se quer o mais completo possível. Por exemplo, na enxaqueca tem havido muitas novidades. Foi aprovado um medicamento chamado Atogepant que é o único medicamento oral para enxaquecas crónicas, que são aqueles doentes que têm enxaquecas em pelo menos 15 dias por mês. São doentes que estavam desesperados, não havia solução, agora os doentes já beneficiam com esse tipo de medicamentos”. E em relação à tecnologia acrescenta: “Um aspecto importante que nós fazemos aqui e que nem todos o fazem, no âmbito do electroencefalograma, os doentes com crises têm a possibilidade de fazer um exame mais prolongado. A maior parte dos locais fazem 30 minutos. Nós aqui, obviamente quando é necessário, temos a possibilidade de fazer durante um período mais prolongado, de 4 horas. E, em alguns casos, é significativo. Sobretudo, em doentes que nós temos dúvidas no diagnóstico, quando não sabemos se as crises do doente são a epilepsia, ou são crises psiquiátricas, crises psicogénicas. Para conseguir distinguir qual é o diagnóstico, pode ser importante fazer esse exame mais prolongado”.
Por: José Peixoto
Fotos: Rui Sousa