Voz da Póvoa
 
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Zabel Moita e a paz de Vila do Conde

Zabel Moita e a paz de Vila do Conde

Cultura | 17 Agosto 2026

 

Sempre que se aproximava esta altura do Verão, ano após ano enquanto a saúde lho permitiu, Zabel Moita, ceramista-poeta de Aljezur, falecida em Março passado, aprontava as suas últimas peças de cerâmica e fazia as malas para participar na grande Feira de Artesanato de Vila do Conde. 

Era com alegria que o fazia. E era com alegria que tanto os organizadores como os outros artesãos, que Zabel Moita sempre incentivou e animou nos seus trabalhos, a recebiam, não esquecendo os visitantes da Feira, curiosos – alguns ansiando a sua chegada – das lindas peças que, durante o ano, ela fora criando na sua terra natal.
 
Para além da poesia escrita em papel desde os tempos da Escola e finalmente editada a partir de 2010, poder-se-á afirmar que esta ceramista moldava versos no barro que ia trabalhando. Basta reparar na ternura das feições das suas doces espantadinhas, das suas figuras de santos e anjos, não esquecendo dos seus Cristos, tão procurados pela humanidade que deixam transparecer, em que sentimos que Zabel Moita tenta aliviar Jesus das Suas dores, nalguns casos apresentando-O até num leito de rosas macias. Quis o destino que a nossa grande Amália Rodrigues fosse possuidora dum destes Cristos, o qual, segundo a própria, a acompanhava para onde quer que se deslocasse; Zabel Moita estava firmemente convencida de que a terá acompanhado na sua viagem derradeira.

Dos muitos lugares espalhados pelo país aonde Zabel Moita se deslocava para expor os seus trabalhos, Vila do Conde era o que mais lhe dizia, mais lhe tocava o coração. Era o calor da sua gente, a sua maneira de receber, sóbria e afável, mas, acima de tudo, a sua serenidade. A mesma serenidade que ela sentia irradiar da beleza da paisagem à sua volta. Tudo a fazia lembrar Vila do Conde quando de regresso a Aljezur: ”Era com ternura que te recordava, / Carinhosamente falava de ti, / Entre meus amigos teu nome soava, / Bonita minhota, nunca te esqueci!” (“Vila do Conde, um ano depois” – poema do livro Mar de Flores e de Esperança.) 
 
Era precisamente esta serenidade que a fazia exclamar: “Cheguei! / E já o verde / Me enche a alma, / Já tudo à minha volta / É esperança certa. / Vila do Conde, / És sempre um mar de calma / Onde o sossego / Tem sempre / A porta aberta...” (“Vila do Conde, cheguei” – poema do livro atrás citado.)

Mais uma Feira de Artesanato a decorrer em Vila do Conde sem a presença de Zabel Moita. Mais uma sem que se possa ouvi-la dizer sentidamente: “O cheiro a mar / Desta bonita terra, / A sua paz divina, / O doce encanto, / A arte e a poesia / Que ela encerra / Fazem, sem querer, / Que eu lhe queira tanto!” (“Vila do Conde, bonita e boa” – poema do mesmo livro acima referido.) E sem ouvi-la confessar: “Quem dera / No teu colo adormecer / E ficar algum tempo / Junto a ti.” (Do poema atrás citado.)                                                                                     
Pois que, no Além, a ceramista que moldava poesia no papel e na argila tenha reencontrado a paz “divina” que já encontrara em Vila do Conde, possa “adormecer no seu colo”. Que tudo em seu redor seja esse “mar de calma” que tanto a encantava, tanta força lhe dava.

Por: Margarida Nörenberg

Na foto: Amália Rodrigues com Zabel Moita

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