Voz da Póvoa
 
...

No Teatro o Actor Oferece o Ócio ao Espectador

No Teatro o Actor Oferece o Ócio ao Espectador

Cultura | 25 Setembro 2026

 

Creio que o segredo da representação se mantém guardado no cofre da história dos tempos. Até para caçar, o mais primitivo Ser humano representava perante a sua presa um chamamento capaz de a atrair para a sua finitude, para o manjar da tribo. O troféu chegou com a modernice. O teatro não tem idade, ou melhor, tem a nossa idade. Tal como o palco, passou a existir quando alguém se interrogou sobre o actor e ficou para o ver, para assistir à explicação do mundo e o espectáculo interminável da memória o transformou em espectador. A sua atenção, a sua reflexão, o seu aplauso continua a confrontar a máquina com o sentimento, e a violência com o nosso consentimento.

Podemos chamar-lhe entretenimento, mas o É-Aqui-In-Ócio – 17º Festival Internacional de Teatro, um evento gerado pela Varazim Teatro – Associação Cultural, apresenta ao público entre os dias 23 de Setembro e 3 de Outubro, no Cine Teatro Garrett, nas ruas e em algumas freguesias do concelho, com companhias nacionais e internacionais, onde o ‘Medo’ como tema será espantado por espectáculos de humor como arma. O primeiro e segundo dia no Garrett são mesmo para “A Instalação do Medo”, peça escrita por Rui Zink e encenada por Eduardo Faria. A interpretação é da Companhia Certa, sem pânico e até com algum humor ‘negro’ que pode sempre lavar a nossa inconsciência.

“Achamos que é um texto extremamente premente e actual. Faz todo o sentido este texto, nos dias que correm. Quando pensamos em representá-lo pela primeira vez, não foi possível, a criação teatral requer algum investimento. Na altura, não tivemos o apoio sustentado. Incluímos este espectáculo no nosso projecto a concurso há dois anos, que recebeu o apoio da Direcção-Geral das Artes e acabou por viabilizar a possibilidade de a fazer. Este ano, deu-se a feliz coincidência de ir ao encontro daquilo que é temática”, explicou Eduardo Faria, director artístico do Festival.

E acrescentou: “O tema do medo foi uma escolha colectiva. Este ano, criámos pela primeira vez uma Comissão de Aconselhamento. Foi um grupo de pessoas que voluntariamente se juntaram a nós na discussão, quer na escolha da temática, quer depois na selecção dos espetáculos que fazem parte da programação. Não de todos, mas uma grande parte da programação foi feita por essa Comissão. Em reuniões, fomos assistindo a espectáculos em formato digital, e depois essa comissão tinha os padrões de avaliação em que cada um foi votando segundo o seu parecer, e no final o grosso da programação, não toda, volto a frisar, mas o grosso da programação surgiu dos espectáculos mais votados”.

Para clarificar as escolhas, Eduardo Faria refere que “tem que haver, de alguma maneira, uma supervisão da nossa parte. Por motivos muito práticos, que é sabermos se os espectáculos são viáveis de serem contratados com os meios que nós temos, quer sejam os meios técnicos, os meios logísticos ou os meios financeiros. Estas questões por vezes afastam determinado espectáculo por muito bom que seja”.

Outra das fontes importantes para a escolha de espectáculos “é assistir a festivais internacionais fora da Póvoa, e muitas vezes feiras de teatro, essencialmente, fora de Portugal. Vamos vendo espectáculos que depois podemos contactar, alguns vêm nessa sequência. Outras vezes, só falando e dando a conhecer aquilo que é a temática, e depois enviam-nos, à posterior, propostas de espectáculos. Por vezes, também convidamos companhias amigas a apresentar propostas. Portanto, eu acredito que serão espectáculos que irão ao encontro do gosto do espectador, do público. Serão espectáculos bastante impactantes”.

A Companhia Certa Fez Jus ao Nome e Internacionalizou-se

“Nós temos vários espectáculos para fazer, mesmo fora de Portugal, mas a novidade que posso avançar é a nossa ida a Buenos Aires, na Argentina, onde vamos apresentar dois espectáculos. É a primeira vez que vamos para tão longe, mas isto é tudo uma sequência de relações, de conhecimentos, de nos darmos a conhecer, pessoas que vão vendo, ao programarem-nos em determinados sítios, também serve mais ou menos de certificado para outros programadores, porque se estiveste naquela sala – eu conheço os parâmetros de exigência e de qualidade que aquela sala tem para alguns espectáculos que apresenta – e se tu estiveste lá, então, mesmo que eu não te conheça pessoalmente, mais facilmente as portas se abrem, e mais facilmente recebemos convites”.

Para o director artístico da Companhia Certa “tem sido um desafio muito desgastante, porque fazemos inúmeros quilómetros, mas tem sido muito prazeroso nesse sentido, e é muito interessante, é muito desafiante, alguns espectáculos que nós fazemos também em Espanha, fazemos com recurso à tradução. Vamos aprendendo algo, não diria que nós fazemos em espanhol, porque isso seria um bocadinho presunçoso da nossa parte, mas fazemos num portunhol de muito boa qualidade, porque eles entendem-nos bem. Então, se eles nos entendem bem, nós devemos estar perto do castelhano. Curiosamente, em Saragoça quiseram em português, uma coisa pouco frequente para lá da fronteira, mas quiseram-me em português por um motivo específico, é que na Universidade de Saragoça há um curso de português e os alunos foram assistir ao espectáculo, e estas coisas emocionam, dão-nos prazer, e fazem acreditar que vale a pena continuarmos este caminho”.

Os passos foram sendo dados com trabalho e convicção, “fazemos parte da Rede de Teatros com Programação Acessível, e somos associados da Acesso Cultura. Nós temos vindo a beneficiar de um apoio específico para isso, mas é um apoio que tem uma duração limitada no tempo. Julgo que termina no próximo ano, ou seja, teremos que procurar uma forma de financiamento que nos permita manter esta condição e de preferência aumentar. O nosso desejo é, um dia, termos meios para podermos ter os espectáculos todos também com audiodescrição. A audiodescrição acresce a qualquer espectáculo, qualquer coisa como 1.000 a 1.200 euros. Portanto, se nós vamos ter 50% dos espectáculos neste Festival com audiodescrição, estaremos a falar de mais 6.000 euros só para a audiodescrição. Isto sem falarmos depois nos recursos técnicos, que a Varazim Teatro adquiriu na expectativa de uma boa gestão de recursos, porque foi um investimento de facto pesado, mas que agora nos vai aliviando os custos cada vez que utilizamos o equipamento, digamos que vai amortizando. Isto sem falarmos nos custos para a Intérprete de Língua Gestual Portuguesa para todos os espectáculos, relacionados com estas questões da acessibilidade, no final se calhar acrescentam qualquer coisa com mais ou menos 10.000 euros ao valor do custo total do festival”.

Para Eduardo Faria seria interessante lançar o desafio a uma Marca ou Empresa que “de alguma maneira se revisse nesta questão da acessibilidade, da democracia no verdadeiro sentido, a extensão da palavra de uma forma completamente apartidária, neste caso, a cultura deve ser algo democrático tornando-se acessível a todos e a qualquer um, mesmo com as suas necessidades específicas, no caso as pessoas cegas, ou com baixa visão, ou as pessoas com uma audição muito baixa. Quem sabe se não há empresas que se reveem nestes valores e se querem de alguma maneira associar a esta nossa empreitada, e fazerem ver de que lado estão em relação a estas coisas”.

A Exigência de um Festival que Angariou Público e Estatuto

“Nós temos a consciência de que o É-Aqui-In-Ócio já tem um certo estatuto dentro do panorama teatral português. Se calhar o comum do cidadão não tem essa noção, mas nós temos essa consciência e não temos a falsa modéstia para fazer de conta que não a percebemos. Nós percebemos que a programação na Póvoa de Varzim, mesmo da temporada teatral, que a Varazim Teatro também faz, no primeiro sábado de cada mês, também é de referência. E temos vários exemplos de situações em que começamos por apostar em determinadas companhias que são emergentes e que nós reconhecemos que têm um grande potencial, mas ainda não são muito conhecidas e, de repente, começamos a ver que essa programação, de alguma maneira, se vai replicando em espaços, também eles, de referência de programação aqui na região e não só. E as pessoas também são honestas connosco, muitas vezes dizem que estão atentas ao nosso trabalho e reconhecem mérito ao nosso trabalho”.

Eduardo Faria espera uma boa adesão do público ao É-Aqui-In-Ócio – 17º Festival Internacional de Teatro: “há um aumento do público local no festival, naturalmente tem gente de fora também. O Festival chama mais gente do que um espectáculo, tem essa vertente, atrai mais a atenção do público, mas é verdade que depois também tem a seu favor o facto de termos uma quantidade de grandes espectáculos num relativo curto espaço de tempo. A média de espectadores no É-Aqui-In-Ócio é ligeiramente superior à média de espectadores na temporada teatral. Claro, os espectáculos da Companhia Certa também contribuem, quer num caso, quer no outro, para o resultado final dessa média. Mas, o que é importante e significativo é a diversidade de origens do público, que aí sim aumenta exponencialmente. Nós ficamos, por vezes, completamente surpresos quando verificamos as origens dos espectadores que preenchem o nosso questionário. Vêm de sítios que são completamente impensáveis, que nós nunca pensaríamos que chegaríamos lá”.

A Varazim Teatro – Associação Cultural viu o contrato de arrendamento da sua sede ‘Espaço d’Mente’ chegar ao fim sem revalidação possível, depois de duas décadas no mesmo lugar. A procura de novo espaço já foi resolvida, mas tem as suas limitações: “Para nós, a relação com o centro da cidade é importante, sobretudo do ponto de vista das aulas. Porque nós temos muitos jovens alunos e muitas crianças, e aqui onde nós estamos é um sítio onde um jovem adolescente pode facilmente, no final das aulas, vir por seus meios até aqui, e em horários diurnos, ir embora a pé sozinho, porque estamos numa zona de muito fácil acesso às escolas. Arranjámos um espaço onde vamos poder dar aulas, a nossa única dúvida é se, do ponto de vista do armazenamento e da oficina, vamos conseguir resolver tudo com o espaço que nós arrendamos que custa mais do dobro do anterior. Tem a vantagem de ser ainda mais central. Permite exactamente aquilo que eu estava a dizer, que os alunos possam vir pelos seus meios e é relativamente seguro e tranquilo para os pais. Não sabemos é se vamos conseguir meter tudo o que temos lá. E depois, estamos na expectativa de podermos também passar a parte administrativa para o espaço que a autarquia em conversa nos garantiu ter disponível para nos ceder”.

A solução foi encontrada, mas a notícia de que a sede seria demolida para dar lugar a construção de habitação chegou a assustar: “Eu acho que alguém que está nestas situações de uma maneira séria não pode deixar de ficar preocupado com o peso de uma responsabilidade, de um compromisso, de um valor a pagar mensalmente que é significativo. Mas, sim, assusta muito e às vezes é necessário pararmos para podermos encontrar a solução”.

O Teatro tem hoje uma exigência maior que, segundo Eduardo Faria, se deve ao trabalho da Direcção-Geral das Artes: “Creio que se trata de uma exigência de puro cuidado, não quero usar a palavra qualidade, porque pode ser injusta, mas de mais cuidado, mais rigor, mais pormenor, e que, por sua vez, transformou o teatro, de alguma maneira, para algo mais apelativo. O teatro, enquanto arte, tem a capacidade de poder ter dentro de si todas as outras artes, ou seja, é possível ver uma peça de teatro com música, com vídeo, é possível ver uma peça de teatro com um cenário onde a arte plástica se expõe, mesmo com as luzes, mas também com a própria cenografia, os próprios figurinos, e o actor em metamorfose”. Sabemos que o Teatro já passou por vários diagnósticos cuja morte anunciada resultou sempre em ressurreição.

Por: José Peixoto

Fotos: Direitos Reservados

partilhar Facebook
Banner Publicitário