
Ao colo dos pescadores era um menino “vem cá Lopinhos”, no chão uma figura notável, capaz de crescer em tudo o que se relacionasse com cultura, tradição e defesa do património, mas nunca deixou de praticar uma certa irreverência quanto à veneração ou obediência a certas regras, autoridades ou tradições estabelecidas. A sua ousada e convicção conseguiu convencer os responsáveis políticos da urgência de construir a “Fé em Deus” uma réplica da embarcação de pesca tradicional de origem secular, a Lancha Poveira do Alto. O início da construção deu-se a 27 de Fevereiro de 1991 seguindo normas e modelos tradicionais. O Bota-abaixo deu-se a 15 de Setembro do mesmo ano. A memória regressava do passado para navegar nas lágrimas dos velhos pescadores presentes. O sonho de Manuel Lopes voltava ao mar.
É desde então a embarcação tradicional portuguesa que mais navega por mar, promovendo a memória do pescador poveiro e português. Em 2012 a mesma embarcação persegue outro dos seus sonhos, rumo à Galiza fazendo aquele que é considerado o primeiro Caminho Marítimo para Santiago de Compostela.
Manuel José Ferreira Lopes (1943 – 2006) foi Director do Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim e da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto. A história local foi sempre o seu covil de investigação, não admira, por isso, que tenha durante anos assumido a coordenação do Boletim Cultural “Póvoa de Varzim”.
A 25 de Junho de 1994, o Município da Póvoa de Varzim atribuiu-lhe a merecida Medalha de Prata de Reconhecimento Poveiro. Manuel Lopes acabaria por doar ao Município da Póvoa de Varzim a sua casa-biblioteca na Avenida Mouzinho de Albuquerque. Depois de uma última viagem da “Fé em Deus” ao bairro marítimo de Bouzas em Vigo, para participar num encontro de embarcações tradicionais, a saúde foi partindo e com ela levou-lhe a vida, a 14 de Agosto de 2006.
O escultor e amigo Ruy Anahory num abraço de memória escreveu: “Na sua assimetria, impreciso, vai e vem o gesto tentado, a marca que aprofunda, atenua ou apaga a ideia, a “escrita” no barro, que tenta dizer o Manel, que há-de criar uma realidade outra que, não sendo ele, o invocará. Feito e desfeito em milhares de gestos e marcas, entre a ideia e a matéria que a agarra e condensa, abismos sucessivos ora se desvanecem ou subitamente se abrem ante os meus olhos. Procuro o Manel, não o óbvio, mas aquilo que de imaterial constrói cada humano. Nele, acrescido de uma personalidade vigorosa, controversa, poética e virulenta, genial e terra-a-terra, tempestuoso e “chão” como o mar, numa vontade de superar aquilo que a vida pareceu negar-lhe, mas que o tornou maior que ela.
Este foi o meu confronto, a catarse, ao tentar, com gestos que não são palavras, mas as contêm, implícitas, descobrir uma espécie de coerência de formas articuladas ao arrepio da banalidade. Mas nos meus imaginários diálogos com o amigo que recordo, ambos sabemos, no entanto, que ainda não cheguei lá, à síntese que sem quase nada contivesse quase tudo.
A Realidade é interpretável, impenetrável, muitas vezes um engano feito de transparências em camadas sucessivas. Por isso Manel, esta é apenas mais uma dessas camadas. Mas, de verdade o que te queria dizer é que nos fazes falta”.
Por: José Peixoto
Fotos: Arquivo e Rui Sousa