Reportagem

Quando Tudo Recomeça Nasce a Primavera
José Peixoto

Todos queremos passar com distinção, mas o tempo é repetente. Todos os anos se despem e se vestem as árvores de folhas, se repetem as chuvas, os temporais, as cheias, o frio, o calor, as flores, os frutos, as sementes. É como se a vida se reaprendesse em memória, se repetisse no vindouro, no calendário, em todas as datas.

Dizemos que nada sabemos do futuro porque não pensamos nunca um tempo repetido, que permite o regresso de toda a renovação. Passamos a vida a semear e a colher sempre coisas novas, iguais. Como conta-las, como defini-las, dar-lhes nome?

Naturalmente foi preciso perceber o ano e não foi fácil contar até 365 dias, mesmo nas terras onde o dia dormia de noite, com os astros a facilitar. Não sei se por preguiça, o pensamento dividiu o ano em meses, semanas, até viver um dia de cada vez, mas o tempo suficiente para perceber as quatro estações.

A descoberta foi num tempo tão antigo que para explicar a natureza se criaram os mitos, personagens capazes de tranquilizar o humano no desconhecido.

Na mitologia, a deusa da agricultura e da fertilidade para os romanos chamava-se Ceres e para os gregos Deméter. Do amor com Zeus nasceu a filha Perséfone. Uma beleza de mulher que foi raptada pelo apaixonado Hades, um deus menor, dos mortos, irmão de Zeus. O tempo perdido na procura da filha e a saudade da deusa Deméter explicava as quatro estações ao comum dos mortais.

O seu choro desmedido provocou inundações e torrentes, depois a rebentação das sementes. Com o secar das lágrimas foram-se as colheitas e o povo lamuriou-se a Zeus. O deus de todas as coisas obrigou-se a firmar um acordo com o irmão Hades. Perséfone regressa ao Olimpo para viver com a deusa mãe, mas apenas por seis meses. Um tempo feliz que passou a chamar-se de Primavera e Verão. Quando Deméter se entristece na ausência da filha ocorre o Outono e o Inverno. Entre a tristeza e a alegria se criaram as estações que Vivaldi um dia musicou, por puro encantamento ou sonho.

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