Reportagem

A Casa Como Ideia de Memória

Somos uma escolha imperfeita. Se a sua casa está aqui foi um acaso. Pela raridade ou pelo louco da coisa, nem sempre a arquitectura deslumbrou. Creio até que foi, em alguns casos, a tresmalhada do rebanho.

Olhamos na sigla, na janela, na porta em vela, no quadrado, no azulejo, no contentor, na casa ao lado que não casa e, entre outras dúvidas, não sei como chamar a um telhado sem telhas.

Há casas da Vila da Póvoa que entraram pela cidade dentro e outras que roubaram o lugar, a memória. A cidade, quando cresce, às vezes, deixa-se demolir em história, para se interrogar de novo, quando o tempo se achar suficientemente antigo. Nós, os sobreviventes, andamos pelas ruas a envelhecer, entre espantos e sombras cada vez mais altas, porque somos avessos à mudança. Sonhamos a vida em castelos ou paredes meias com a eternidade.

O Pessoa foi Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares e outros não menos verdadeiros. Todos com a sua arquitectura de memória, de vida. Há palavras prenhes de encantamento na janela da casa que habitamos, que agarramos no olhar, no sonho. Quando o verbo procurava a razão, a gruta era a nossa casa. Quando encontramos o sujeito, descobrimos o desassossego que nos conduz à diversidade.

As casas são como as flores. Cheiram, chamam pelos olhos de quem passa. Dá vontade de entrar, colher a curiosidade de cada pétala. Uma casa é sempre uma engenhosa versão da criatividade. Espreitamos a linguagem e surpreende-nos a presença de certos elementos da paisagem edificada. Comparamos o imaginário e confessamos o inacabado, o invisível. O que vemos é a suprema versão da realidade. As casas falam por nós, mas reduzem-se cada vez mais ao utilitário. Hoje, a casa cresce como esboço de memória, mas não sei se vai ter tempo no futuro para contar gerações.

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