Opinião

A Literatura Tem Mais Um Nobel
José Peixoto

Nascemos vazios, com a memória toda. Crescemos a acreditar que para subir toda a montanha é preciso um longo caminhar. É nesta lonjura que muitos ficam para admirar ou desistir. É por isso que na vertigem do tempo acumulamos tudo e amadurecemos nesse pensar.

Mas “os tempos estão a mudar”, como Dilan cantava e escrevia, mas não o suficiente para chegar ao Nobel. Isso pensaram os como eu. Os outros disseram que sim ao extraordinário compositor de canções. Foram tantos os buracos que agora passamos a ter a certeza que a montanha desceu ao lugar dos ratos.

Não quero diminuir o nipónico de nascença e inglês de vivência, Kazuo Ishiguro, pela razão que acredito, pelo que li, que se trata de um nome grande da literatura, mas os maiores voltaram a não rivalizar. A academia sueca dá sinais de cansaço. Falta saber se os mestres começaram a ser substituídos pelos novos académicos por equivalência, gente deformada em leituras por decreto.

Nunca foi o dinheiro que tornou o Nobel apetecível, mas a sua grandeza. A literatura é a arte que separa o ser humano do resto dos animais. Depois, a capacidade inventiva de desconstruir o ódio em todos os géneros e elevar a palavra ao altar do pensamento, só está ao alcance dos génios. Talvez por isso nomes como Luiz de Camões, Miguel de Cervantes, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Marcel Proust, Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi, Vladimir Nabacov, entre tantos outros, nunca tenham vencido um Nobel, mas alcançaram com o seu desassossego a eternidade na literatura.