Opinião

LIBERDADE PARA MENTIR
Coisas e Loisas Mais o Futebol
ARTUR QUEIROZ

Alguns políticos confundem propaganda com jornalismo e vendedores de banha da cobra com jornalistas. Se este engano viesse apenas dos irrelevantes, era lastimável. Mas não. Vem, sobretudo, dos políticos que desde a institucionalização da Liberdade de Imprensa, em 25 de Abril de 1974, têm ocupado o poder. Um dos peritos nesse exercício que corrompe a democracia, é o Presidente da República. Anda há anos usufruindo de tempo de antena em espaços noticiosos, sem que os consumidores sejam alertados para isso. Mas não é um caso isolado. Está em linha com os políticos do “arco da governação” que, em boa hora foi atirado para o lixo por António Costa e a direcção do seu partido.

Os Conselhos de Redacção são hoje meros instrumentos decorativos. Mas não sou capaz de qualificar os jornalistas que os integram e muito menos aqueles que neles votam e permitem atentados gravíssimos ao Estatuto do Jornalista, ao código ético e deontológico e ao mais elementar dever de cuidado. A Comissão da Carteira Profissional, importantíssima, tem sido pouco mais do que irrelevante.

O jornalismo é a minha vida há 52 anos. Trabalhei em mais de 40 órgãos de comunicação social em vários países. Entre eles, o “Jornal de Notícias” e o “Diário de Notícias”, quando ambos, cada um na sua época, eram líderes de audiências e de tiragens em Portugal. Fui à Internet ver as últimas notícias e vejo uma, atribuída ao velho “JN”, que relatava pormenores sobre o estado de saúde do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Expressões como “estado de saúde agravado” ou mesmo a citação de um “site” que noticiava a sua morte, deixaram-me perplexo.

Mas no dia seguinte, lá estava o mesmo relambório e não vi qualquer desmentido da direcção do “JN”, onde estão jornalistas que conheço há muitos anos. De dois, até sou amigo. Fico a pensar que talvez seja um silêncio negligente que acaba por ser cúmplice. Mas depois o texto é “chancelado” com material recolhido do “Maka Angola”, uma coisa repugnante que nada tem a ver com jornalismo. Tenho ouvido, visto e lido declarações de políticos e jornalistas que alertam para as mentiras propaladas nas redes sociais. Mas o “JN” faz a citação de um material recolhido do pior que existe nas redes sociais, sobre Angola e os titulares dos seus órgãos de soberania.

O mesmo aconteceu no domingo com o “Diário de Notícias”, jornal donde fui saneado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, por Victor da Cunha Rego e Mário Mesquita. Na época era correspondente do jornal em Angola. Mais uma vez, foi construída uma peça jornalística com base em mentiras propaladas nas redes sociais. Pergunto: os dois jornais publicavam uma notícia sobre a saúde do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com base em “factos” recolhidos das redes sociais onde reina o anonimato e os atropelos aos mais básicos princípios do jornalismo? Duvido.

O Presidente José Eduardo dos Santos não morreu. Mas acabam de ser pregadas mais umas tantas cavilhas no caixão do jornalismo português, com as atoardas sobre o Chefe de Estado Angolano. Baptista-Bastos, meu camarada em várias Redacções, dizia que em Portugal só existiam cinco jornalistas (mostrava os cinco dedos da sua mão esquerda) e todos os outros eram meros simpatizantes. O senhor Abel Pereira (nunca consegui tratá-lo de outra maneira), que era o nosso director, dizia com a sua proverbial bonomia:

- Ó Bastos, os outros todos são jornalistas não praticantes!

Infelizmente, o tempo veio revelar que ambos estavam certos. Mas não precisava de descobrir essa dura realidade através de dois jornais onde fui feliz profissionalmente. Sobretudo o meu “JN”, o jornal feito por figuras extraordinárias do jornalismo português.

O futebol. Benfica é campeão. Mas isso não vale nada porque os clubes com capacidade e grandeza para serem campeões dizem que houve batota. Quando ganhar o FC Porto, o Sporting, o Braga, o Guimarães ou a Académica (esperem pelo seu regresso à primeira divisão!) os outros vão alegar que houve batota. Qualquer dia, o golo do Éder que deu a Portugal o título de campeão europeu, foi marcado fora de jogo e a França perdeu porque houve batota.

Isto está cheio de simpatizantes da baixeza moral e não praticantes da decência!