Opinião

UMA TRAGÉDIA A DOBRAR
O Jornalismo Português e a Morte de Mário Soares
Artur Queiroz

A morte de Mário Soares foi uma tragédia para a comunicação social portuguesa, porque revelou estar totalmente virada para a propaganda, abandonando em definitivo princípios como o rigor e a objectividade. A imprensa chinesa passou dias a endeusar Mao Tse Tung quando o velho revolucionário da Longa Marcha morreu. Os portugueses bateram largamente os chineses no culto da personalidade e no endeusamento do antigo presidente da República. Bateram-se mano a mano com os propagandistas da Coreia do Norte, quando Kim Il Sung faleceu.

Balsemão, Belmiro, Rosita da TVI, polícias-jornalistas do “Correio da Manhã” ou da “Sábado” perderam a cabeça e fizeram de Portugal uma espécie de Alemanha de Hitler ou de Uganda de Idi Amin. O sector público da comunicação social copiou escandalosamente o “Diário do Povo” de Pequim ou o velho “Pravda” da defunta União Soviética. A morte de Mário Soares serviu para a mais primária campanha de propaganda que alguma vez se viu em Portugal. Se António Ferro, o propagandista do regime salazarista, estivesse vivo, morria de vergonha.

Os propagandistas até conseguiram fazer de Mário Soares o primeiro Presidente da República eleito! Claro que acrescentaram uma palavra: “civil”. Eanes que se lixe, não passa de um general que recusou ser marechal. Apresentaram o extinto líder socialista como pai da liberdade e da democracia em Portugal. O maior de todos os políticos. O máximo da tolerância, o supremo guardião da paz. Nem uma voz, em surdina que fosse, ousou perturbar a propaganda.

Quando o pai da liberdade era primeiro-ministro, Otelo Saraiva de Carvalho foi preso. E esteve vários anos na cadeia. Depois foi absolvido. O comandante operacional do 25 de Abril  e seus companheiros do MFA, que deram o corpo ao manifesto para libertarem os portugueses do regime fascista, não valem nada comparados com Soares.

O expoente máximo da tolerância cilindrou figuras do seu partido como Salgado Zenha ou Lopes Cardoso. Aliou-se ao Exército de Libertação de Portugal (ELP) para derrubar o regime revolucionário nascido no 25 de Abril de 1974. Criaram uma rede bombista que fez atentados em todo o país. E nas explosões morreram civis inocentes. Soares foi amigo e aliado de Alpoim Calvão, Spínola, Cónego Melo e vários operacionais que fizeram atentados à bomba e incendiaram sedes de partidos políticos democráticos.

O pai da democracia recebeu Jonas Savimbi no Palácio de Belém, na época líder de um grupo armado ao serviço do regime de apartheid da África do Sul, que matava e destruía em Angola, país amigo de Portugal. Em Pretória pontificavam os nazis. Savimbi, quando foi recebido pelo Presidente Soares já tinha assumido publicamente um atentado bombista na sala de embarque do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, em Luanda, que causou dezenas de vítimas civis. O amigo do antigo Presidente da República fez explodir vagões-cisternas, cheios de combustíveis, num comboio que estava parado na estação de Zenza do Itombe. Resultado: centenas de mortos civis. Alguns sobreviventes ainda hoje mostram as cicatrizes das queimaduras graves que sofreram com o ataque terrorista.

O pai da liberdade esteve conluiado com a CIA, organização responsável por milhões de mortos em todos os continentes. O embaixador Frank Carlucci e o antigo líder socialista prepararam várias acções que culminaram com o derrube do regime revolucionário iniciado em 25 de Abril de 1974.

A operação de propaganda serve para esconder estes e outros factos que dão de Mário Soares uma dimensão mais própria de homens do que de deuses. E mostram um político que não hesitou em aliar-se ao pior lixo que sobreviveu ao regime fascista ou apoiou Savimbi, ponta de lança da agressão dos racistas sul-africanos a Angola.

Quando estive na Coreia do Norte, uma simpática guia mostrou-me os sítios, de norte a sul do país, onde Kim Il Sung descansou, onde comeu uma bucha, limpou a arma, tirou uma soneca, escreveu um poema, desbaratou um grupo inimigo, falou aos soldados, amou uma mulher. Tudo o que eu via, tinha a ver com o grande líder. Mais de 40 anos depois levo uma injecção de Mário Soares, atrás da orelha e nos olhos, que me deixou abananado. Que ressuscite a liberdade de imprensa! Soares é imortal.