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Arquivo: Edição de 19-11-2009

SECÇÃO: Cultura

Entrevista a Luís Miguel Pipa

A Musica dos Brinquedos

Miguel Pipa
Miguel Pipa

Luís Miguel Pipa nasceu em Vila do Conde em 1980. Nos últimos anos integra vários projectos, com destaque para Nuvem Voadora e Companhiautista, onde a rua é o maior dos palcos. No último ano e meio criou o projecto, Kanukanakina. O nome descende de uma queda que deu na infância quando bateu com a nuca numa quina. Para saber mais consulte: www.myspace.com/kanukanakina

A Voz da Póvoa – Como explica um projecto onde os brinquedos são os protagonistas?

Miguel Pipa – Invisto muito em brinquedos a pilhas. Instalo um curto-circuito e altero tudo. Uns partem-me o coração porque queimavam logo, outros transformam-se no instrumento desejado. Fascina-me a descoberta de sons sempre diferentes. Como amplifico todos os brinquedos, uso as suas colunas como microfones de contacto para outros instrumentos.

A.V.P – São objectos transformados em instrumentos?

M.P. – A ideia é pegar em objectos comuns e trabalha-los, usando microfones de contacto ou processadores, que permitem atingir determinado som, e fundir tudo com os brinquedos. Criei um contrabaixo com molas de ferro. Cada brinquedo que construo tenho que aprender a tocar e explorar ao máximo os seus sons. É uma aprendizagem que não tem uma escola.

A.V.P. – Saber tocar um instrumento ajuda a procurar os sons nos brinquedos?

M.P. – Ajuda, mas não quero tocar nenhum instrumento convencional, convido pessoas que o façam. Pretendo partilhar o caos de ruídos com um instrumento melódico, que acolhe toda a anarquia sonora dos brinquedos. A surpresa, o experimentalismo ou a fusão com a sonoridade do instrumentista convidado é o objectivo.

A.V.P. – Qualquer movimento musical pode ser associado?

M.P. – Tudo passa pelos músicos que convido. Há sempre uma discussão saudável sobre o fim a atingir. Nos ensaios, posso dar ou receber uma ideia, sabendo que no palco será a liberdade dos diálogos sonoros a construir o espectáculo. Este projecto baseia-se muito em ritmos do quotidiano, não tem uma pauta, vive de impulsos.

A.V.P. – O uso do manequim de montra serve para musicar os afectos?

M.P. – O corpo feminino suscita interrogações que me interessam. No caso dos manequins, instalei potenciómetros nos mamilos que, ao manipular, transmitem a ideia de carícia. Há ali uma reacção do objecto, uma resposta. Da mesma forma que a manipulação do objecto às vezes não funciona, também o corpo, por vezes, rejeita ou procura demonstrar que o toque não é aquele, exigindo outra carícia, outro afecto.

A.V.P. – As crianças são também um público fascinado pela brincadeira sonora?

M.P. – As crianças recebem o som sempre pelo lado do brinquedo. Como são curiosas, querem saber como é feito. A ideia passa por ir às escolas, ou as crianças virem a um espaço próprio para receber formação nesta área. Os miúdos têm muitos brinquedos parados que podem aprender a manipular, reconstruindo um outro brinquedo.

A.V.P. – Como reagem as pessoas a um projecto tão original?

M.P. – Em Portugal pouca gente o faz. Mas as pessoas gostam. O Circuit Bending, nasceu, nos anos 60, por um senhor chamado Reed Ghazala. Acontece que cada um tem os seus brinquedos. Não é o mesmo instrumento nas mãos de vários músicos, cada um com o seu virtuosismo. Há países onde existem festivais de grande nível só direccionados para estes projectos. O interesse está na variedade de quinquilharia que cada um manipula.

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