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O Café Nicola Fechou Portas
Perde-se Um Património Imaterial da Póvoa

Café Nicola deixa saudades

Café Nicola deixa saudades

Ao fim de 43 anos de actividade, o Café, Restaurante e Pensão Nicola encerrou toda a sua actividade. O Nicola era uma das casas mais conhecidas da Póvoa de Varzim. Mas a sua fama chegava a outros lugares de Portugal e até do estrangeiro.

Lugar de encontros e de tertúlias, foi um espaço onde se realizaram diversas iniciativas culturais e lúdicas, tais como jogos tradicionais, corrida de carrianas, arco e gancheta, andas, malha, sueca e um concurso de desenho para o primeiro ciclo, além das conhecidas noites de fado.

Mesmo a altas horas da madrugada, ninguém ficava à porta. E podia-se degustar o bacalhau ou a feijoada cozinhados pela dona Irene. Mas era o convívio e a animação que faziam do Nicola a casa de cada um. A casa de todos.

Foi com a voz embargada pela tristeza que António Extremina explicou as razões que levaram a esta difícil decisão: “Fomos obrigados a fechar portas pelo brutal aumento do valor da renda. O edifício é bastante antigo, tem infiltrações e humidade, e todos os anos gastava-se uma pequena fortuna para manter a casa com o mínimo de condições de funcionamento. Mas estes argumentos de nada serviram para o senhorio e assim se acaba com uma casa com 43 anos de história e de muitas estórias”.

António Extremina conta que os pais adquiriam o passe do Nicola em 1974: “Na altura custou dois mil contos, uma pequena fortuna para a época. O meu pai, António Vieira, e a minha mãe, Irene Extremina, foram os mentores do projecto. Na altura eu, com 14 anos, e os meus irmãos fomos imbuídos no espírito. E levamos uma vida inteira de trabalho. Entramos de cabeça erguida e orgulhamo-nos de sair de igual forma, com o sentido de responsabilidade intacto e sem máculas”.

Foi uma decisão dura, acrescenta António Extremina: “As minhas vivências, o meu crescimento enquanto pessoa foi ali naquela casa, sem esquecer as relações de amizade que se criaram. As pessoas iam ao Nicola, não por ser um café de topo ou de excelência, mas porque sabia receber de braços abertos e sempre com um sorriso nos lábios. Havia pessoas que só entravam para me cumprimentar. Tínhamos clientes do país inteiro, que cá vinham no Verão, e o Nicola chegou a funcionar 24 sobre 24 horas. Nunca fechava. Era uma casa de referência, que tinha sempre algo para oferecer”.

E recorda: “As pessoas vinham e, de forma espontânea, começavam a tocar guitarra e viola e a cantar o fado a noite toda. No fundo, sentiam-se em família. Este ambiente foi cultivado pelo meu pai, que catapultava toda a actividade desportiva, cultural e recreativa, e pela minha mãe, uma cozinheira exímia e um dos pilares do Nicola. Tudo o que hoje somos a ela o devemos, sem esquecer o contributo do meu tio Leopoldino”.

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