Cultura

Dói Ver Partir Esta Palavra
Texto: José Peixoto / Fotografia: José Carlos

Homenagem no Pátio

Homenagem no Pátio

Os poetas não sabem partir, deixam-se ficar pela ausência. É como se tivessem por dizer esta palavra. Dói ver ser.

Em Massarelos, Armando Ramalho escolheu o primeiro dia do ano para olhar a luz e depois, anos mais tarde, a ingratidão. Viveu em Vila do Conde desde a idade do sonho e foi-se embora, para a terra do nunca, no quarto dia de Janeiro, com 58 anos, vítima de uma vida levada pouco a sério, mas absolutamente grávida de liberdade. Amava todas as mulheres, nenhuma mais que a mãe. O tempo deu-lhe a voz na palavra e entre alguns milhares de poemas editou em 1999, pelas edições Silêncio da Gaveta, o livro, Dói Ver Ser Esta Palavra. Fica uma certeza: sempre soube ser poeta.

Em entrevista a este jornal revelou que pela vida fora foi sempre um consumidor de metáforas: “Amortalhei todas as palavras, mas verdadeiramente assumi a condição de poeta depois dos bons e maus tratos do corpo. Sem viagem o sexo é artesanal, reduz-se ao eu simples, não há verbo e a poesia maltrata-se em ondas de esquizofrenia. Espanha, França, Holanda, países do eu semeado, mas há ainda o bar das moscas em Toulouse e outras boémias. Sou um cavaleiro que dá ao trote”.

Oficialmente o poeta editou pouco, mas há uma imensa quantidade de poemas ou pequenos livros semeados pelas pessoas, vendidos ou dados. “É uma trova solar, ou uma poesia nervosa, sem preço, um poema a um euro, cem pelo mesmo valor, ou de borla. Na rua, nos bares, a troca. Escrevo em várias línguas, desconheço a viagem dos meus poemas, desejo-lhes a integridade, uma vida para além da minha ou mais curta. Há também quem os cante. A poesia é a memória dentro dum cartucho à espera do estrondo. Também desenho as perversões sexuais de bandido letrado”.

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